domingo, 14 de agosto de 2011

15 de agosto - Nossa Senhora da Glória

Imagem de N. Srª no altar da Igreja

Seu dia é amanhã, mas hoje aqui no Rio acontece missa solene, procissão e tantos outros eventos. Segue a homenagem.

O Outeiro da Glória, outrora chamada "Morro do Leripe" ou "Uruçumirim", apresentava-se abrupto sobre o mar e era o local, descrito por Mem de Sá, onde se encontrava a "fortaleza de biroaçumirim...com muitos franceses e artilharia."
Conquistado pelos portugueses em 20 de janeiro de 1567, sob o comando do fundador da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, Estácio de Sá, é local dos mais importantes na historiografia carioca. Primeiro, porque foi aí com a vitória dos portugueses, que se firmou o domínio luso na cidade; depois, porque foi deste solo que saiu ferido mortalmente seu fundador.
Leandro Joaquim - Outeiro da Glória, 1790

A devoção a Nossa Senhora da Glória surgiu no início do século XVII, alguns anos após a fundação da cidade, quando no ano de 1608, um certo Ayres colocou uma pequena imagem da Virgem numa gruta natural existente no morro.
Mas as origens históricas remontam a 1671. O ermitão Antonio Caminha, natural do Aveiro, esculpiu a imagem da Virgem em madeira e ergueu uma pequena ermida no "Morro do Leripe", onde já existia a gruta, formando-se em torno um círculo de devotos.

Diz a lenda que para presentear o rei D. João V, Caminha fez uma réplica da imagem embarcando-a para Portugal. O navio que a transportava naufragou e as ondas a levaram para uma praia na cidade de Lagos, no Algarve. Aí frades capuchinhos a recolheram, levando-a para o convento onde é cultuada até os dias atuais, na Igreja de São Sebastião.
As terras com o nome de Chácara do Oriente, compreendendo o Outeiro, pertenciam a Cláudio Gurgel do Amaral e foram doadas à Nossa Senhora em escritura pública de 20 de junho de 1699, com a condição de ser edificada uma capela permanente, e que nela fossem sepultados o doador e seus descendentes.
R. A. Chamberlain, Londres, 1822
coleção Candido G. de Paula Machado

Pelo contexto da escritura depreende-se que em 1699 já havia uma Irmandade para cultuar Nossa Senhora da Glória, confraria que segundo o "Santuário Mariano" possuía, em 1714, "quantidade de dinheiro para dar princípio a uma nova e grande igreja de pedra e cal, porque a primeira que se fez foi de madeira e barro."
A Irmandade de Nossa Senhora da Glória foi canonicamente instituída a 10 de outubro de 1739, ano em que se concluiu a construção do templo, por ato provisional do Bispo do Rio de Janeiro, Frei Antonio de Guadalupe, em resposta a uma petição dos Irmãos.
Barão de Planitz, litografia, séc. XIX

A Igreja ganhou enorme prestígio quando da chegada da Corte Portuguesa, em 1808. A família Real tinha especial predileção por ela. Em 1819 a princesa Maria da Glória foi trazida por seu avô, D. João VI, para a cerimônia da consagração. A partir de então todos os membros da família Bragança, nascidos no Brasil, são consagrados na Igreja.
Em 27 de dezembro de 1849 D. Pedro II outorgou o título de "Imperial" à Irmandade. Após esta data todos seus descendentes nascidos no Brasil são membros da mesma. O advento da República respeitou esta outorga.
Nossa Senhora da Glória
Litografia de Martinet,1860 - col. particular

Durante o governo de Getúlio Vargas foi declarada "Monumento Nacional", e como tal tombada pelo Decreto-Lei de 25 de abril de 1937, que preserva os bens de valor artístico e histórico. O tombamento ocorreu a 17 de março de 1938, inscrito no Livro Tombo do Ministério de Educação e assinado por Rodrigo de Mello Franco de Andrade.
Em 1° de novembro de 1950 o Papa Pio XII conferiu à Igreja da Glória o título de "Basílica Nacional da Assunção".
imagem devocional em papel - séc. XX

Fonte: Irmandade de Nossa Senhora da Glória do Outeiro

sábado, 13 de agosto de 2011

13 de agosto - Santo Hipólito (mártir)

Hipólito de Roma foi o mais importante teólogo do século III d.C. da Igreja antiga de Roma, onde ele provavelmente nasceu. Fócio o descreveu em sua Bibliotheca (cód. 121) como sendo um discípulo de Ireneu, que acredita-se ter sido discípulo de Policarpo e, pelo contexto da passagem, supõe-se que o próprio Hipólito assim se considerava. Ele se opôs aos bispos de Roma que afrouxaram as regras de penitência para acomodarem um grande número de novos convertidos da religião pagã. Porém, muito provavelmente ele já estava reconciliado com a Igreja quando morreu como mártir.
Marchetaria na Catedral de Orvieto, séc.XIV

À partir do século IV d.C., várias lendas surgiram sobre ele, identificando-o como um padre do cisma novaciano ou um soldado convertido por São Lourenço. Ele também é muitas vezes confundido com um mártir de mesmo nome.
Como um presbítero da Igreja em Roma sob o Papa Zeferino (199 - 217 d.C.), Hipólito se destacou por sua erudição e eloquência. Foi nesta época que Orígenes, então um jovem, o ouviu pregar.
Ele acusou o Papa Zeferino de modalismo, a heresia que ensinava que Pai e Filho eram apenas nomes diferentes para o mesmo sujeito. Hipólito, por sua vez, defendia a doutrina do Logos dos apologistas gregos, que distinguia o Pai do Logos ("Verbo"). Um conservador do ponto de vista ético, ele se escandalizou quando o Papa Calisto I (217 - 222 d.C.) estendeu a absolvição aos cristãos que tinham cometidos pecados graves, como o adultério. Foi nesta época que é possível que ele tenha se permitido ser eleito como um rival do bispo de Roma, além de continuar atacando os papas Urbano I (222 - 230 d.C.) e Ponciano (230 - 235 d.C.).
Ícone russo

Hipólito e seu grupo entraram em conflito com o Papa Calisto I (217-220), por pensar que o novo Pontífice, ao relaxar a legislação demasiado dura sobre o casamento e a penitência, estava abandonando a tradição católica. Justificando, com este motivo, sua posição irredutível, Hipólito escreveu o tratado sobre A Tradição Apostólica, fonte de primeira importância, para conhecermos a Igreja de seu tempo. Queixou-se também, de Calisto, de que tivesse este papa sendo condescendente quanto ao fato de se cometer um pecado mortal, não ser razão suficiente para depor um bispo, como alegava o contrário a Hipólito. Reclamava também, do fato que o Papa tivesse admitido às ordens a quem se tinha casado duas ou três vezes e que tivesse reconhecido a legitimidade dos matrimônios entre os escravos e mulheres livres, o que estava proibido pela lei civil. Combateu as mais variadas heresias, e foi grande defensor da sã doutrina e disciplina.
Anônimo, 1515
Sttatliche Kunstsammlingen - Dresden

Hipólito era um homem pouco dado ao perdão. E suas atitudes pouco conciliatórias só poderiam causar problemas no seio da Igreja. Suas “implicâncias” eram tão “ferozes”, suas críticas tão “ácidas”, seu palavreado tão propenso à discussão, que começaram a “minar” a autoridade papal com grandes recriminações que atingiam com francas e amplas censuras diretamente ao papa Zeferino, por ser, em sua opinião, não suficientemente preparado para detectar e denunciar a heresia. Por ocasião da escolha de São Calisto I, ele interrompeu as relações com a Igreja de Roma, e, reunindo seus inúmeros seguidores, consentiu ser ordenado Bispo de Óstia, e em ser colocado como antipapa; opositor ao Papa, fundando uma igreja própria, arrastando no cisma parte do clero e do povo de Roma. Sua postura intransigente, acrescentando-se suas divergências pessoais de oposição, e, a não disfarçada inveja, porque Calisto fora o preferido pelo clero a ele como sucessor do Papa Zeferino, fizeram nascer um cisma que durou vinte anos, e, continuou durante o pontificado de Ponciano, que contudo conseguiu, com a sua magnanimidade reconduzir Hipólito e o seu grupo à unidade da Igreja.
Miniatura medieval, sem data

Na perseguição aos cristãos do imperador Maximino Trácio, Hipólito e Ponciano foram exilados juntos em 235 d.C. para a Sardenha e é muito provável que lá, antes de sua morte, ele tenha se reconciliado com seus adversários em Roma, pois já sob o Papa Fabiano (236 - 250 d.C.) seu corpo e o de Ponciano foram trazidos para Roma. Pelo Catalogus Liberianus é possível verificar que em 13 de agosto, provavelmente de 236 d.C., eles foram enterrados em Roma, sendo Hipólito no cemitério na Via Tiburtina e Ponciano nas Catacumbas de São Calisto. Este documento também indica que, por volta de 255 d.C., Hipólito já era considerado um mártir cristão e lhe atribui a posição de padre e não a de bispo, mais uma indicação de que antes de sua morte ele já tinha sido recebido novamente no seio da Igreja.
Martírio de Santo Hipólito
Anônimo - Museu de Belas Artes de Boston

Santo Hipólito foi um dos maiores e mais destacados escritores da Igreja de Roma dos primeiros séculos. Pode muito bem ser comparado a Clemente de Alexandria ou Orígenes. Grande parte de seus escritos foram redigidos em grego, e, pelo fato de adotar esta língua (ele a escolheu, porque era uma língua mais difundida na época do que o latim), contribuiu para que a sua memória ficasse bastante diminuída até obscurecer-se quase por completo ao latinizar-se a Igreja ocidental a partir do século IV. São Jerônimo o chamava de o “homem mais santo e eloqüente”. Os extensos escritos de Hipólito, que pela variedade de assuntos podem ser comparados aos de Orígenes, abarcam as esferas da exegese, homilética, apologética e polêmica, cronografia e direito canônico. Hipólito preservou também a primeira liturgia conhecida sobre a Virgem Maria, como parte da cerimônia de ordenação de um bispo.
Martírio de Santo Hipólito
Dirk Bouts - 1480
Museu de São Salvador - Bruges

Porém, infelizmente, a maior parte de suas obras chegou até nossos dias em uma condição fragmentada e é difícil obter delas qualquer noção exata de sua importância intelectual e literária.
Corpo do santo na Catedral de Rogeno
Fonte: Wikipédia

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

12 de agosto - Santo Herculano de Bréscia (confessor)


Muitas são as lendas e hipóteses sobre Santo Herculano, e é difícil traçar um quadro histórico satisfatório. Certo é que, sob o reinado do imperador Justiniano, no ano 552, Herculano foi eleito bispo de Bréscia. Viveu a sua missão de pastor, empenhou-se na pregação do Evangelho, rezou por seu rebanho e pregou o perdão e a santificação das almas. Ele foi o 19° Bispo de Bréscia e exerceu o seu ministério no século VI. Diz-se ter visto Cristo com os Apóstolos como pobres, e enquanto lhes entregava pães, estes foram transformados em pedras preciosas. Foi abade em um mosteiro da cidade, e com suas orações restituiu à vida dois mortos. Pássaros, peixes e animais terrestres obedeciam ao seu chamado, e viu, também, anjos que lhe traziam alimento dos céus.
Como se lê na epígrafe da lápide do altar da Igreja de  Maderno sul Garda (foto abaixo), Herculano nasceu na Alemanha, no século VI, filho de nobres e ricos pais,  Onorato e Arissa, que há tempos pediam a Deus com orações, jejuns e esmolas, um filho. E o tiveram. Desde cedo, seus pais viram-no inclinado ao sacerdócio e observavam o seu amor aos pobres. Aos 15 anos ele meditava como abandonar as riquezas e as delícias do mundo para dedicar-se a Cristo.

Da Alemanha, transferiu-se para a província de Bréscia, para a cidade de Campione sul Garda. Naquela época a Itália foi invadida pelos Godos e Lombardos, povos bárbaros que não foram nada complacentes com a população. Vale lembrar que os invasores eram vistos como hereges e criavam problemas para os bispos, tanto que o arcebispo de Milão, Honorato, abandonou a cidade para refugiar-se em Gênova. O mesmo poderia ter acontecido a Herculano, que de Bréscia transferiu-se para Campione sul Garda graças às perseguições e dos bárbaros invasores. Na época, o bispo era a única autoridade e força moral. Herculano ensinou ao povo a oração pela paz, a mortificação do corpo para livrar-se do hedonismo. Foi amado e estimado pelos habitantes das margens do Como. Foi estimado em vida e em morte.
Narra-se que em 1768, após uma milagrosa pesca de 2916 carpas, durante a missa comemorativa de 12 de agosto, todos os pescadores da zona atribuíram o feito ao Santo.

Praticava severos jejuns e morava em uma gruta. Os pescadores da região levavam ao santo o melhor produto do seu trabalho, mas ele distribuía os peixes aos pobres. Prevendo a sua morte, foi ao encontro de um seu amigo barqueiro e pediu-lhe um barco emprestado, dizendo que precisava daquele meio, pois abandonaria “aquele pedaço de terra para ir em direção à praias mais amplas, em direção ao sol”. Mas as praias mais amplas e o sol, além do céu, significavam o amplo golfo de Maderno, onde seu corpo teria encontrado descanso. O homem deu-lhe a barca, e esta levou o corpo do santo morto até a praia que margeia a praça da cidade de Maderno.
Relíquias do Santo durante a missa do dia 12 em Maderno

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

11 de agosto - Santa Clara de Assis (virgem)

Vida de Santa Clara - obra de Ugolino Verino, 1496

 Santa Clara nasceu em 1193 ou em 1194, na cidade de Assis, filha primogênita antes de outras duas irmãs. Sua família, por parte de pai, era uma família de cavaleiros; por parte de mãe, Clara tinha também o sangue da nobreza. Seu pai se chamava Favarone de Offreduccio, e sua mãe, Hortolana. Além da nobreza de origem, a família era rica, possuidora de não poucos bens.
Simone Martini, séc. XIV - Basilica de São Francisco, Assis

Como convinha a uma jovem da nobreza, Clara foi educada para ser uma mulher da sociedade, mas sua mãe, mulher de profunda piedade cristã, não se descuidou de transmitir-lhe também os ensinamentos da religião. Assim, desde criança, Clara acompanhava os gestos caridosos de sua mãe para com os pobres de Assis. E ela mesma, desde tenra idade, já se privava de iguarias para, às escondidas, dá-las aos pobres.

Na idade de 17 para 18 anos, momento em que seus pais já estavam preocupados em arranjar-lhe um bom casamento, Clara, sob pretexto de pensar melhor sobre sua vida, postergava sempre a idéia de contrair matrimônio, recusando com delicadeza os pretendentes que os pais lhe apresentavam.
Giotto - Capela Bardi, Florença

Foi neste tempo que ouviu falar de Francisco, um jovem que deixou família e riquezas para, com um grupo de companheiros - todos considerados loucos pela sociedade - simplesmente viver segundo o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Esta ideia a empolgou. Estava decidida: iria viver como aqueles jovens. Depois de algumas conversas com Francisco, foi feito por ambos um plano de fuga.
Deste modo, na noite do domingo de Ramos de 1211 (ou 1212), Clara abandonava a casa e era conduzida à capela de Francisco e de seus companheiros para, aí, depor suas ricas vestes e vestir o hábito da penitência. Após esta breve cerimônia, Clara foi conduzida a um mosteiro de monjas beneditinas.
Salimbeni Ventura - vestição de Santa Clara
Basílica de Santa Maria degli Angeli, Assis

Quando a fuga foi descoberta, os parentes foram ao encalço dela. Tentaram de todos os modos possíveis convencê-la a voltar para casa. Mas ela, agarrando-se à toalha do altar, tirou o véu que lhe cobria a cabeça tonsurada, sinal de sua consagração a Deus. Os parentes viram que nada mais tinham que fazer.
Duas semanas depois, nova fuga da casa de Favarone. Era a segunda filha, Inês, que fugia e ia viver com Clara. Nova tentativa dos parentes de conduzir de volta a segunda filha. Tudo em vão. Assim, a nova comunidade fundada por Clara começava a crescer. Vieram em seguida suas antigas companheiras: Pacífica, Benvinda de Perugia, Cecília de Gualtieri, Filipa de Gislério, Cristiana de Bernardo e outras. Mais tarde veio também a outra irmã, Beatriz, e finalmente sua mãe Hortolana.
Mestre de Santa Clara, 1280
Altar da Basílica de Santa Clara, Assis

Depois de mais de quarenta anos de vida no mosteiro, uma vida escondida que, no entanto, irradiava por todas as regiões da Itália, Clara faleceu aos 11 de agosto de 1253, sendo canonizada apenas dois anos depois de seu falecimento.
Corpo da santa na Basílica de Santa Clara, Assis


Da Leggenda di Santa Chiara Vergine existem algumas versões manuscritas, sendo o mais importante deles o de Tommaso da Celano, biógrafo de São Francisco.
Na Leggenda é possível enumerar os atributos iconográficos para o reconhecimento da santa que, como franciscana, é representada geralmente jovem, vestida com o hábito negro ou marrom da Ordem, com um cordão com três ou cinco nós, que representam, respectivamente, os votos de pobreza, castidade e obediência, e as cinco chagas da Paixão.
Geralmente está descalça ou usa sandálias; o manto pode ser da mesma cor do hábito, e o véu pode ser negro, representando seu matrimônio com Cristo, ou branco, representando sua virgindade.
O ostensório é seu símbolo iconográfico mais difundido, e liga-se ao milagre por ela realizado ao colocar em fuga as tropas imperiais de Frederico II quando, em 1243, atacaram as portas de Assis e tentaram di assediar São Damiano. Embora doente há tempo, e acamada, fez-se levar por duas irmãs até a porta do mosteiro carregando o ostensório nas mãos. Ao tocá-lo com as mãos e orar pedindo a salvação de suas irmãs, ouviu-se uma voz de menino proveniente do tabernáculo que dizia: “Eu sempre te defenderei”. Clara levantou o ostensório aos céus e uma luz muito intensa irradiou do objeto sagrado, amedrontando as milícias sarracenas e fazendo-as bater em retirada.
Giotto - Santa Clara chora a morte de Francisco
Assis, Basílica Superior

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

10 de agosto - São Lourenço (mártir)

Francisco de Zurbarán - 1638
Museu Provincial de Belas Artes de Cádiz, Espanha

O Diácono Lourenço, de Origem espanhola, foi levado a Roma pelo papa Sisto II, Ali foi incumbido de administrar os bens da Igreja e socorrer os pobres que eram mantidos pela mesma. O cruel Imperador Valeriano, determinou uma acirrada perseguição à Igreja, seus bispos, sacerdotes e diáconos, e uma das primeiras vítimas foi o Papa Sisto II, que sofreu o martírio em 258. Lourenço acompanhou-o até o lugar do suplício, e com os olhos marejados de lágrimas disse-lhe: “Meu pai, para onde vás sem vosso filho? Para onde o Santo Padre, sem o vosso diácono? Jamais oferecestes o sacrifício, sem que eu vos acolitasse? Em que vos desagradei? Encontraste em mim alguma infidelidade?” O Papa, comovido com estas palavras de dedicação filial, respondeu: “Não te abandono, meu filho! Deus reservou-te provação maior e vitória mais brilhante, pois és jovem e forte; velhice e fraqueza fazem com que tenham pena de mim; daqui a três dias me seguirás.” Tendo assim falado, deu ao jovem diácono instruções sobre os tesouros da Igreja, aconselhando que os repartisse entre os pobres.

Francisco de Zurbarán - 1636

Lourenço atento à solicitação do Santo Padre, procurou todos os pobres, viúvas e órfãos da Igreja e entre eles repartiu o dinheiro. Objetos de outro, prata e pedras preciosas, vasos sagrados de grande valor, tudo foi vendido e com o dinheiro sustentou os milhares de pobres da Igreja. Quando o prefeito da cidade teve conhecimento dos grandes tesouros da Igreja e de que Lourenço era o administrador, mandou chamar-lo em sua presença e disse-lhe: “Nada de ti exijo, que não seja possível realizar. Soube que vossos sacerdotes se servem em vasos de ouro e prata em vossas celebrações e que usais velas de cera, colocadas em castiçais de ouro. Soube, também, que vossa Igreja ordena dar a Cesar o que é de Cesar; trazei-me, pois, todos estes objetos, de que o imperador precisa.” “É verdade, - replicou Lourenço, - a Igreja é rica, mais rica que o Imperador. Concedei-me o prazo necessário, e tudo será arranjado em tempo.” O Prefeito supondo tratar-se de riquezas materiais deu-lhe de boa vontade o prazo de três dias.

Lourenço correndo contra o tempo, foi ao encontro de todos os pobres, viúvas, órfãos, cegos, surdos, mudos, paralíticos, peregrinos e desamparados, para que no terceiro dia estivessem todos à porta da Igreja. No dia e hora marcados, todos em grande multidão, compareceram à porta da Igreja. Lourenço convidou o Prefeito para inspecionar os tesouros da Igreja e apontou para a multidão reunida: “Eis os tesouros da Igreja : os míseros que levam com resignação a cruz de cada dia, carregam o ouro da virtude; são as almas prediletas do Senhor que valem muito mais que pedras preciosas.” O Prefeito vendo-se enganado e iludido, cheio de ódio falou: “É assim que te atreves a ludibriar as Autoridades Reais Romanas? Miserável! Se o teu desejo é morrer, pois bem, hás de morrer, mas uma morte longa e cruel.” Deu a ordem para que Lourenço fosse cruelmente açoitado. Finalmente mandou que trouxessem uma grelha, que foi posta sobre brasas. O Santo foi despido e colocado sobre a grelha incandescente.

Martírio de São Lourenço - Giuseppe Creti, séc. XVIII
Igreja de São Lourenço em Lucina, Roma

Martírio de São Louenço - escola flamenga, séc. XVII
Los Angeles County Museum

Martírio de São Lourenço
Goya

Santo Ambrósio escreveu que eu rosto brilhava como um fogo divino, e de seu corpo exalava um suave perfume que inebriava a todos.Lourenço demonstrava uma paz inigualável; seus lábios esboçavam um discreto sorriso; e com mansidão disse ao Juiz: “Se desejares, podeis dar ordem para que me virem, pois já estou bastante assado deste lado!”


O Santo mártir rezava pela conversão de Roma, cidade eterna regada com o sangue dos apóstolos Pedro e Paulo. Seus últimos momentos foram de louvor e adoração; era o dia 10 de agosto de 258.

Marco Antonio Franceschini, séc. XVII
Igreja Real de São Lourenço, Turim

São Prudêncio era da opinião que a conversão de Roma, foi fruto do martírio de São Lourenço. São Leão assim expressou seu martírio: “As chamas não puderam vencer a caridade de Cristo; e o fogo que queimava por fora foi mais fraco do que aquele que lhe ardia por dentro.”
Relicário do dedo de São Lourenço, séc. XIII
Museu do Louvre, Paris

 

terça-feira, 9 de agosto de 2011

9 de agosto - Santos Fermo e Rústico (mártires)


Fermo e Rústico foram dois mártires da África do Norte. O primeiro teria morrido em Cartago, no tempo do imperador Décio, que empreendeu uma grande e dura perseguição aos cristãos nos anos de 249 até 251. O segundo teria sido morto, junto com outros, na região da Argélia, durante o império de Valeriano.
As suas relíquias encontram-se na igreja de São Fermo e São Rústico, em Verona, na Itália. Trata-se de um conjunto arquitetônico muito exótico, formado por duas igrejas construídas uma sobre a outra, em momentos diferentes. Uma teria sido construída durante o século XIII e a outra pelo século XIV. A magnífica igreja superior guarda as urnas de Fermo e Rústico, os quais possuem uma história muito interessante, envolta de longínquas tradições cristãs do Oriente e do Ocidente. Segundo elas, Fermo e Rústico não eram africanos, mas veronenses de origem. Teriam sido mortos decapitados por não renegarem a fé em Jesus Cristo no tempo do imperador Maximiano, entre 286 e 310. Depois disso, seus corpos teriam sido enviados a Cartago, no norte da África, para serem sepultados.
Filippo Juvara - séc. XVIII
Altar de São Fermo e São Rústico
Catedral de Bérgamo, Itália

Porém suas relíquias tiveram novamente o rumo da Itália, entre 757 e 774, devido à aclamação do povo. O retorno foi patrocinado pelo bispo de Verona, Annone, que custeou o traslado das relíquias de volta à sua terra natal. Os dois mártires foram acolhidos com grande solenidade, quando os corpos foram depositados nas igrejas, que há muito tempo já haviam sido erguidas em honra de seus nomes.
Essa história está registrada em dois documentos: no "Translatio ss. Firmi et Rustici", da segunda metade do século VII, e no "Il ritmo pipiniano", escrito entre os séculos VIII e IX. Naquela época, o norte da África estava sob domínio dos vândalos de Genserico. Isso provocou uma emigração de cidadãos romanos, fugitivos, de volta à Itália.

Sebastiano Ricci
São Prócolo sentado ladeado pelos Santos Fermo e Rústico

Verona era a província que mais acolhia esses fugitivos. Ela teve, mesmo, como bispo, o norte africano Zeno, também um fugitivo, que hoje é festejado como Padroeiro da cidade. Ele é um bom exemplo de como o povo veronense tinha grande veneração pelos mártires africanos. Assim, é bem possível que tenham adotando, também, os santos Fermo e Rústico, muito celebrados como padroeiros de Verona.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

8 de agosto - São Domingos de Gusmão


Domingos nasceu no ano de 1170, em Caleruega, pequena localidade na Velha Castela. O pai, Félix de Gusmão, pertencia a uma família de alta linhagem na Espanha; a mãe era Joana de Aza. Antes de Domingos nascer, sua mãe, em sonho misterioso, viu um cão que trazia na boca uma tocha acesa, de que irradiava luz sobre o mundo inteiro. Efetivamente, São Domingos veio a ser uma luz extraordinária de caridade e de zelo apostólico, que dissipou grande parte das trevas das heresias e restabeleceu a verdade em milhares de corações vacilantes. Domingos, foi o nome dado à criança, devido à uma devoção que a mãe do santo tinha com São Domingos de Silos, do qual um dia teve uma aparição, comunicando-lhe os planos divinos em referência ao recém-nascido. A esse aviso extraordinário, os pais corresponderam com esmerada atenção na educação do filho. Domingos, pequeno ainda, deu provas de inclinação declarada às coisas de Deus.
Aos seis anos os pais o confiaram à direção de um tio, reitor de uma igreja em Gumyel. Sete anos passou Domingos na escola daquele sacerdote, aprendendo, além das primeiras letras, enfeitar os altares e cantar no coro. Decorrido este período, transferiu-se para Valência, cidade episcopal no reino de Leon, onde existia uma universidade que mais tarde, em 1217, transferiu-se para Salamanca.
Ambrosius Benson - Museu do Prado, Madrid

Durante o tempo dos estudos em Valência, seis anos, dedicou-se à arte retórica, além da filosofia e teologia. Acompanharam-lhe os trabalhos científicos às práticas da piedade, inclusive, severas penitências. Retraído por completo do mundo, visitava somente os pobres e doentes, protegia as viúvas e órfãos. Por ocasião de uma grande fome, vendeu os livros para poder socorrer os necessitados. Certa vez, ofereceu sua própria pessoa para resgatar um jovem que caíra nas mãos dos mouros.
A caridade de Domingos, não satisfeita com as obras corporais de misericórdia, estendia-se principalmente às necessidades espirituais do próximo. Para este fim, desenvolveu um zelo extraordinário, como pregador. O primeiro fruto deste labor apostólico, foi a conversão do amigo e companheiro dos estudos, Conrado, que mais tarde entrou para a ordem de cister, elevado posteriormente à dignidade de Cardeal.

Domingos contava apenas vinte e quatro anos e era considerado um dos mais competentes mestres da vida interior. Dom Diego de Asebes, bispo de Osma, conhecendo os brilhantes dotes de Domingos, convidou-o a incorporar-se ao cabido da diocese, esperando desta aquisição uma reforma salutar do clero. O prelado não se viu iludido nas suas previsões. Domingos em pouco tempo, foi objeto da admiração de todos, como modelo exemplar em todas as virtudes cristãs.
Como cônego de Osma, Domingos percorreu diversas províncias da Espanha, pregando por toda a parte a palavra de Deus, pela conversão dos pecadores, cristãos e maometanos. Uma das conversões mais sensacionais que Deus operou por intermédio de Domingos foi a de Reiniers, célebre heresiarca, que mais tarde tomou o hábito dos frades dominicanos.
Domingos não era ainda sacerdote. Do bispo de Osma recebeu a unção sacerdotal, continuando depois a missão apostólica de pregador. Quando em 1224, por ordem do rei Afonso de Castela, o bispo de Osma foi à França na qualidade de embaixador real, a fim de tratar dos negócios matrimoniais do príncipe herdeiro Fernando com a princesa de Lussignan, Domingos acompanhou-o. Na província de Languedoc, entraram em contato direto com os hereges albingenses. Numa segunda viagem que empreenderam, cujo fim era buscar a princesa e entregá-la ao esposo, tiveram o grande desgosto de não a encontrar entre os vivos. Chegaram ainda a tempo de assistir-lhe ao enterro.
Pedro Berruguete - 1480 - Museu do Prado
São Domingos combate os albigenses

Preferiram, então, ficar na França, para dedicar-se à campanha contra os hereges. O bispo Diego, com o consentimento do Papa, ficou três anos na província de Languedoc. Passado este tempo, voltou à diocese.
A São Domingos, que foi nomeado superior da Missão, associaram-se doze abades cistercienses. Pouco tempo, porém, durou o trabalho coletivo. Dom Diego voltou à Espanha, os cistercienses retiraram-se para os seus claustros e o próprio Legado pontifício abandonou o solo francês.

Domingos não desanimou apesar do perigo e dificuldade da missão. Com mais oito companheiros que lhe foram mandados, continuou os trabalhos apostólicos. A inconstância, porém, que encontrou nos coadjutores, fez nele amadurecer a idéia de fundar uma nova Ordem, cujos membros, por um voto, se dedicassem à obra da pregação. Os primeiros que se associaram foram Guilherme de Clairel e Domingos, o Espanhol. Em 1215 a nova comunidade contava já dezesseis religiosos, com seis espanhóis, oito franceses, um inglês e um português. Para assegurar-se da aprovação pontifícia, Domingos em companhia do bispo de Toulouse foi a Roma e apresentou-se ao Papa Inocêncio III. Coincidiu ele chegar à Cidade Eterna na abertura do Concílio de Latrão. Opinaram os padres que em vez de aprovar as regras de novas ordens, devia o Concílio dirigir a atenção para as Ordens já existentes e aperfeiçoar-lhes as constituições. Inocêncio III, baseando-se nestas decisões, negou-se, por diversas vezes, em dar aprovação à regra da Ordem fundada por Domingos. Aconteceu, porém, que o Papa teve uma visão, quase idêntica à que lhe fez aprovar a Ordem de São Francisco de Assis, em 1209. Não querendo contrariar a obra do santo, deu consentimento à fundação da Ordem, prometendo a Domingos expedir a bula, logo que este tivesse adotado uma regra de ordem já aprovada pela Igreja. Domingos decidiu-se em favor da regra de Santo Agostinho, à qual acrescentou mais algumas constituições, como por exemplo, o silêncio, o jejum e a pobreza.
São Domingos recebe a regra
Escola emiliana - séc XVIII - Museu de Arte de Sassari

Quando Domingos, pela segunda vez chegou em Roma, já não encontrou o Papa Inocêncio III, mas o sucessor deste, Honório III. Contrariamente ao que receava, obteve a aprovação da ordem, que veio a ser chamada Ordem dos Pregadores. Nomeado o primeiro superior, fez a profissão nas mãos do Papa.
Graças à generosidade do bispo de Toulouse e do conde Simão de Montfort, Domingos pode construir o primeiro convento em Toulouse.
Pouco tempo depois, Domingos voltou a Roma e fundou diversos conventos na Itália. Em Roma, conheceu São Francisco de Assis, a quem se ligou em íntima amizade. Em 1218 foi a Bolonha fundar um convento, perto da Igreja de Nossa Senhora de Mascarella. Um ano depois, teve Domingos a satisfação de fundar outro na mesma cidade, sendo que este, tempos depois, veio a ser um dos mais importantes da Ordem na Itália.
O exemplo de São Francisco de Assis e o admirável desenvolvimento da Ordem por ele fundada, influiu grandemente no espírito de são Domingos. Como o Patriarca de Assis, introduziu S. Domingos na sua ordem o voto de pobreza em todo o rigor.
São Domingos convocou três capítulos gerais e teve o prazer de ver a Ordem se estabelecer na Espanha, em Toulouse, na Provença e na França toda. Conventos surgiram na Itália, Alemanha e Inglaterra. O próprio fundador mandou emissários à Irlanda, Noruega, Ásia e Palestina.

São Domingos morreu no dia 06 de agosto de 1221, na idade de 51 anos. Numerosos milagres foram operados por seu intermédio. O Papa Gregório IX inseriu-lhe o nome no catálogo dos Santos, em 23 de julho de 1234. Muito concorreu para o culto de S. Domingos na Igreja Católica, a devoção do Santíssimo Rosário, de quem era grande Apóstolo.

Oficina de Nicola Pisano
Tumba de São Domingos - Convento dos Frades Pregadore - Bologna

A Ordem dos pregadores deu à Igreja, muitos Santos, entre estes o grande São Tomás de Aquino, Santo Alberto Magno, Santa Catarina de Siena, São Vicente Ferrer, o Papa Pio V.

Iconografia:

Os atributos do santo são símbolos que se relacionam a diferentes momentos de sua vida. O primeiro deles é um livro, a Bíblia, indicativo da sua atividade de pregador e conversor. Certas vezes há uma igreja sobre o livro indicando a Basílica Laterana de Roma que sonharam que seria derrubada e que somente seria salva por dois monges: um de hábito branco (o dominicano) e outro de hábito marrom (franciscano),sonho com o qual o Papa Inocêncio III compreendeu que dominicanos e franciscanos deveriam ser ordens autorizadas, por serem as “colunas salvadoras da Igreja”.

Afresco no Monastério de Matris Domini - Bérgamo
séc. XIII

Outro deles é um cachorro que carrega um tocha na boca, que recorda o sonho que teve sua mãe, ainda grávida, onde um cachorro saía de seu ventre com a tocha na boca. Ela se consultou com São Domingos de Silos, que vivia em um monastério beneditino próximo, e o padre disse-lhe que teria um filho destinado a “acender o fogo de Cristo através da pregação”. A criança teria o seu mesmo nome, Domingos, derivado do latim Dominicus que significa “do Senhor”.
anônimo - séc. XVII
Museu dos Terceiros, Portugal
Sua pureza é representada pelo lírio branco nas mãos;
Anônimo italiano do século XVIII

 Sua dimensão de grande pregador e guia das almas em direção a Cristo é representada por uma estrela em sua testa, que dizem ter aparecido no momento de seu batismo.

Como fundador de uma Ordem religiosa, carrega uma cruz de dois braços, a cruz patriarcal, e também o estandarte com o escudo de armas dos Dominicanos; o escudo é composto de um campo branco, sinal da pureza, e outro negro, sinal da penitência, e o lema  Laudare, Benedicere, Pradicare” que significa “Louvar, Bendizer, Predicar“. Por último, em alguns quadros é representado com três mitras, significando que renunciou três vezes ao bispado, preferindo dedicar-se à pregação.
Imagem venerada em Zaragoza, Espanha