terça-feira, 13 de setembro de 2011

13 de Setembro - São João Crisóstomo (Padre da Igreja)

Altar de São João Crisóstomo - Sebastiano del Piombo, 1510
Igreja de São João Crisóstomo, Veneza

Crisóstomo, descendente de família distinta, nasceu em 348 em Antioquia, na Síria. O pai Segundo, que era comandante das tropas imperiais no Oriente, morreu cedo, deixando a educação do filhinho aos cuidados da excelente esposa, Antusa. Mestres de fama mundial, como Libânio e Antragácio, introduziram o menino talentoso nos arcanos da ciência, e Diodoro de Tarso foi seu instrutor em matéria de religião. O Bispo Melécio batizou-o em 368 conferindo-lhe na mesma ocasião as ordens menores. Já neste tempo Crisóstomo manifestou grande inclinação para a vida de asceta, e se não fosse a resistência enérgica da mãe, teria se associado aos eremitas do deserto.
ícone bizantino - séc. X
Monastério de Chelandari - Monte Athos, Grécia

Quando em 373, sendo-lhe já bastante conhecidos o talento e a santidade, e o povo, exigindo sua elevação à dignidade episcopal, João fugiu para junto dum monge, em cuja companhia viveu quatro anos, e depois para uma gruta, onde ficou dois anos, dedicando-se exclusivamente às práticas da vida religiosa, com suas austeridades, e aos estudos dos Sagrados Livros.
Como a saúde se lhes abalasse, com a rudeza da vida no deserto, voltou para Antioquia, onde se ordenou em 386. Em Antioquia desenvolveu logo uma atividade muito grande, como escritor e orador sacro, de onde lhe foi dado o apelido de Crisóstomo (boca de ouro) pelos bizantinos.
Esta sua estada em Antioquia coincidiu com uma grave revolta que houve contra o imperador, por causa de impostos. O povo despedaçou estátuas do imperador, do irmão, de dois filhos e da falecida imperatriz Flavila e deixou-se arrastar a outros atos de vandalismo. Era para temer uma terrível represália da parte do imperador Teodósio I, cujo gênio irascível era bastante conhecido. O bispo Flaviano dirigiu-se para Constantinopla, para aplacar a ira do monarca. Em Antioquia reinava o pavor. Muitas famílias tinham fugido; os membros do senado estavam na prisão e o povo tremia, na expectativa de medidas ainda mais rigorosas. Foi a época em que a arte retórica de Crisóstomo celebrou os mais belos triunfos. Dia por dia via-se as multidões do povo desesperado ao redor do púlpito, ávidos de ouvir-lhes as práticas e ensinamentos que as consolavam. A palavra de João Crisóstomo sugestionava, continha as massas e levava-as por onde quisesse. O entusiasmo dos ouvintes chegou ao auge, quando lhes transmitiu a notícia do perdão e anistia, que o imperador tinha concedido à cidade, em atenção ao pedido do Bispo e à petição que o mesmo tinha apresentado, em nome de Crisóstomo e da população arrependida.
Michael Damaskenos
Corfú, Grécia

A fama da grande eloqüência de Crisóstomo tinha-se espalhado em todo o Oriente e quando, em 397, morreu o patriarca de Constantinopla, Nectário, o imperador Arcádio, filho de Teodósio, chamou Crisóstomo para ocupar-lhe o lugar. Foi preciso toda a habilidade e prudência da parte do imperador, para conseguir o consentimento do seu candidato. A nomeação de João Crisóstomo para Constantinopla causou grande descontentamento em Alexandria, cujo patriarca, Teófilo, levantou enérgico protesto contra a decisão imperial. Não obstante, impôs as mãos ao novo Patriarca.

Da vida simples e pacata de Antioquia, viu-se João Crisóstomo transportado para a cidade da riqueza, do luxo, para a grande metrópole, a sede da alta política, com suas intrigas e paixões, para Constantinopla, a rainha do Oriente que, com seus palácios magníficos e Igrejas majestosas, dominava dois continentes. O novo Patriarca teve um acolhimento simpático da parte do clero, da aristocracia e da população inteira. Antes de tomar efetivamente as rédeas do governo da diocese, Crisóstomo procurou conhecer bem o terreno em que pisava. Em condições tão diferentes das de Antioquia, diferente se lhe afigurou o novo campo de atividade. O clero de Constantinopla, em sua maioria, estava pouco compenetrado da sublimidade de sua missão. Ambicioso, avarento e político, pouco tinha do espírito de Cristo, que é o espírito da humildade, de caridade e de sacrifício. Em rente de tais circunstâncias, Crisóstomo compreendeu, que sua atividade não mais se imitaria à pregação da palavra de Deus, mas haveria de encetar a obra da reforma em base larga e inevitável: seria a luta e talvez a perseguição.
ícone grego, séc. XIX

Fiel ao seu costume, pregava as homilias dominicais e explicava a Sagrada Escritura. A majestosa “Hagia Sophia”, aquele grandioso monumento da fé católica em Constantinopla, enchia-se de fiéis de todas as classes, para ouvir a palavra arrebatadora e apostólica do novo Antístite.
Mais importante, mais penosa e desagradável impunha-se-lhe a obra da reforma. Esta começou em casa. O antecessor, Nectário, de espírito pouco evangélico, tinha feito do palácio episcopal um reduto do luxo, com todas as futilidades e comodidades. João Crisóstomo estabeleceu nele a vida evangélica, com toda simplicidade e decência. O segundo passo na reforma interessou a vida do clero e das religiosas, as quais em grande parte conviviam com os sacerdotes, o que mereceu a crítica do povo, e a censura e proibição do Patriarca. O zeloso pastor verberou outrossim os excessos da moda, principalmente o luto “chic” das viúvas, e procurou implantar no povo a simplicidade dos costumes e o espírito de fé. As obras da caridade, a administração dos bens eclesiásticos, a elevação do clero na roça, a contra-propaganda contra os arianos residentes na cidade enfileirados no exército, eram coisas mui importantes, a que o Patriarca dedicou todas as energias. Todas estas reformas criaram-lhe muita inimizade. Mormente entre o clero. Era inevitável o choque.
ícone grego-bizantino, séc. XVI

O primeiro veio-lhe da parte de Eutrópio, eunuco e grande protegido do imperador Arcádio. Eutrópio, na sua sede insaciável de ouro e para poder apoderar-se das suas vítimas, tinha obrogado o direito de asilo. Crisóstomo protestou contra esta arbitrariedade, tendo pouco tempo depois a grande satisfação de ver o mesmo Eutrópio invocar em seu favor o direito do asilo, quando numa revolta militar viu sua vida em perigo.

Terrível inimiga, com que Crisóstomo teve de terçar armas, surgiu-lhe na própria pessoa da imperatriz Eudóxia, que depois do afastamento de Eutrópio, governava o imperador. Dum despotismo sem par, era Eudóxia ainda muito avarenta, e esta paixão que inteiramente a dominava, fê-la cometer clamorosas injustiças. Todos conheciam o modo de pensar de João Crisóstomo. Como não faltassem elementos vis, cujo maior interesse era semear cizânia e incitar os espíritos um contra o outro, puseram no ouvido do imperador muitas coisas, que o inimizaram com o Patriarca. Disseram-lhe que, numa prática contra as modas escandalosas, João Crisóstomo se tinha referido ao mau exemplo de Eudóxia; em oura ocasião a tinha apelidado de Jezabel, para apostrofar-lhe a crueldade e a ambição. As relações portanto entre a família imperial, em particular entre Eudóxia e o Patriarca, não eram menos que cordiais. O rompimento, porém, se realizou quando João Crisóstomo deu agasalho (aliás com a necessária cautela) a monges que o Patriarca Teófilo de Alexandria tinha expulso de sua diocese, por suspeitar de sua ortodoxia. Eudóxia alcançou de Arcádio que convocasse um concílio em Constantinopla, perante o qual Teófilo havia de justificar as medidas tomadas contra os monges em questão. Clandestinamente, porém, mandou convidar a Teófilo para que viesse com a maior brevidade, e declarasse vaga a sede patriarcal de Constantinopla. Teófilo chegou a Constantinopla, em companhia de vários bispos, desafetos de João Crisóstomo, não, porém, como acusado, mas como acusador e juiz. O concílio realizou-se em Chalcedon, estando presentes 36 bispos. João Crisóstomo, sendo citado perante aquele tribunal, exigiu por sua vez a exclusão de 4 bispos, notadamente seus inimigos. O concílio reconheceu nesta exigência um ato de insubordinação da parte do acusado, e declarou-o deposto da dignidade de Patriarca. Característico em todo este processo foi, que nem de leve se tocou na questão dos monges, expulsos de Alexandria e aceitos em Constantinopla; mas tanto mais se tratou de supostas ofensas, que João Crisóstomo teria dirigido ao imperador e à imperatriz. O Santo não se opôs à injustiça que lhe fizeram, e entregou-se ao agente executivo, que o devia levar ao exílio. No caminho do Bósforo o povo lhe fez delirantes manifestações, tomando assim a sua saída da capital o caráter dum triunfo nunca visto. Na noite que seguiu a partida, a população de Constantinopla foi atemorizada por um forte terremoto. A própria imperatriz, profundamente impressionada com este fenômeno, pediu ao imperador revogação do edito contra João Crisóstomo. A atitude do povo contra o imperador tornou-se tão ameaçadora, que João Crisóstomo pode voltar, sem esperar nova determinação dos bispos.
João Crisóstomo inspirado por São Paulo
ícone russo, séc. XX

De pouca duração, porém, foi a paz. No mesmo ano se inaugurou perto da Igreja um monumento, que apresentava uma estátua de Eudóxia. Por esta ocasião a aglomeração do povo foi tamanha, que chegou a perturbar a celebração dos atos litúrgicos no templo. O Patriarca pediu providências ao prefeito, reclamando contra os abusos que se praticavam. A reclamação foi interpretada maliciosamente, como se o Patriarca tivesse protestado contra a existência do monumento. Mal Eudóxia teve conhecimento do fato, logo se dirigiu de novo a Teófilo, pedindo-lhe a intervenção. Este, dispensando triunfos pessoais em Constantinopla, limitou-se a citar as determinações ainda em vigor do concílio de Chalcedon. Embora este concílio nenhum valor tivesse, o imperador proibiu ao Patriarca o uso de ordens e mandou fechar o palácio episcopal.

Não obstante – João Crisóstomo entrou pela Páscoa na Catedral, para administrar o batismo aos catecúmenos, que ele mesmo tinha preparado. Força armada penetrou no templo e dispersou a multidão dos fiéis. Chegou o dia de Pentecostes, e com ele o decreto imperial que condenava o Patriarca ao exílio. João Crisóstomo, despedindo-se dos fiéis e dedicados amigos, abandonou secretamente a capital, para evitar um segundo levantamento do povo. Sua saída de Constantinopla desta vez foi definitiva. Escoltado por soldados da força pública, João Crisóstomo foi para o exílio, sem saber para onde o levariam. Algum tempo ficou em Nicéia, onde desenvolveu uma atividade considerável na conversão de pagãos. Comunicaram-lhe que Cucusu era o lugar terminal do seu desterro, e para lá havia de ser deportado.
ícone grego-bizantino, séc. XIX

A viagem foi penosíssima e chegou a ser um verdadeiro martírio para o pobre exilado. Chegando a Cesaréia na Capadócia, os próprios bispos negaram-lhe agasalho, e monges fantasiados atacaram-lhe a casa. Não havia quem lhe quisesse dar hospedagem, de modo que é verdade o que João queixa numa carta , dizendo, que sofre mais que os criminosos nas minas e nas prisões. Finalmente, após uma viagem de 70 dias, cheia de peripécias, e perigos, chegou a Cucusu, na Armênia. Apesar de ser o “lugar mais ermo do mundo” (expressão de João Crisóstomo), a permanência lá não lhe foi tão desconfortada como se podia supor. Tendo sempre comunicação com os amigos de Constantinopla, estes o beneficiaram também no exílio. Até de Antioquia recebia cartas e visitas. Sofrimentos e grandes provações não lhe faltaram. A saúde ressentiu-se muito, com o clima áspero e irregular de Cucusu. Bandos isáuricos devastaram diversas vezes aquela região e obrigaram os habitantes a refugiar-se nas grutas e montanhas. Fugindo destes inimigos, João Crisóstomo procurou abrigo num castelo fortificado em Arabisso.
ícone russo - séc. XVII

Os amigos do Santo em Constantinopla passaram por um grande vexame, e tornou-se-lhes bem crítica a situação. Logo depois da saída de João Crisóstomo, houve dois grandes incêndios, que destruíram a grande catedral, algumas casas contíguas e o palácio do Senado. Os inimigos do Patriarca inculparam os partidários de João Crisóstomo de terem sido eles os causadores destes desastres, e abriram forte campanha contra eles. Ambas as partes apelaram para o Papa Inocêncio I. A sentença do sumo Pontífice desagradou profundamente aos adversários de João Crisóstomo, pois Inocêncio I declarou-se em favor destes contra o concílio de Chalcedon, e fez a proposta, de apresentar a questão a outro concílio, o qual, porém, não se realizou, devido à má vontade de Arcádio.
mosaico bizantino - séc. X
Igreja de Santa Sofia, Istambul

Tendo conhecimento das comunicações que havia entre João Crisóstomo e Constantinopla e Antioquia, o imperador ordenou-lhe a transferência para Pitio na margem oriental do Mar Negro. O organismo do Santo, já bastante depauperado e combalido, não mais resistiu às fadigas desta forçada viagem de três meses. Quase sem forças chegou a Comana, onde pernoitou na igreja de São Basílio. Em sonho ouviu o Santo dizer-lhe as seguintes palavras: “tenha ânimo, irmão, o dia de amanhã nos unirá”. No dia seguinte, 14 de setembro de 407, entrou no eterno descanso. As últimas palavras que disse foram: “Louvado seja Deus por tudo. Amém”.
O cisma terminou só com a morte de Arcádio, Eudóxia e Teófilo. Teodósio II, filho e sucessor de Arcádio, cumpriu a ordem do Papa, de restabelecer a honra do Patriarca injustamente exilado. A transladação do corpo de São João Crisóstomo para Constantinopla em 27 de janeiro de 438 revestiu-se de uma pompa, como igual a cidade não tinha visto ainda. As relíquias de São João Crisóstomo acham-se hoje em Roma, na igreja do Vaticano.
Igreja de São Nicolau - Praga, séc. XVIII

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

12 de Setembro - Santíssimo Nome de Maria

Genalogia da Virgem
anônimo, México, c. 1825

Como era de costume entre os judeus, oito dias após a Santíssima Virgem nascer, os seus pais deram-lhe, inspirados por Deus, o nome de Maria. A diocese de Cuenca, na Espanha, por aprovação do pontífice, concedida em 1513, foi a primeira a celebrar a festa. Suprimida por São Pio V, foi retomada por Sisto V, em 1671, e extendida ao Reino de Nápoles e a Milão. Inocêncio XI, em 12 de setembro de 1683, estendeu-a a Igreja Universal, em ação de graças pela vitória alcançada por João III Sobiesk, rei da polônia, sobre os turcos que tinham cercado Viena e ameaçavam o ocidente cristão. O nome de Maria, em hebraico, que dizer senhora soberana. E a Senhora é realmente Soberana, em virtude da soberania que lhe foi concedida pelo filho, Rei e Soberano do Universo. Chamamos a Maria de Nossa Senhora, pelo título que chamamos a Jesus Nosso Senhor.

domingo, 11 de setembro de 2011

11 de Setembro - São Bartolomeu o Jovem (abade)


São Bartolomeu o Jovem (Rossano, 981 – Grottaferrata, 1055) foi um monge monaco italiano que desde pequeno manifestou grande interesse pela vida monástica,  tanto que seus nobres pais resolveram confiá-lo, aos sete anos, ao monges bizantinos do Mosteiro de São João Calibyta em Caloveto. Mudou-se ao doze anos para o Mosteiro de Montecassino, onde vivia São Nilo o Jovem,permanecendo ali muitos anos, e seguindo-o, em  994 para Serperi, onde viveu em oração e jejum por seis anos.
No ano 1000 acompanhou Nilo a Roma para implorar piedade ao compatriota Giovanni Filagato, autoproclamado Papa com o nome de João XVI, na presença do imperador Oto III, através da mediação do Papa Gregório V. Durante a viagem, próximo de Grottaferrata, a Virgem Maria apareceu aos dois monges, e pediu-lhes para que ali erigissem um templo e um mosteiro. O terreno foi doado por Gregório, Conde de Tuscolo, e foi utilizado o material de uma antiga villa romana na construção do templo.

Visão de Nilo e Bartolomeu
Abadia de Monferrato

Nilo morreu em 1004 e Bartolomeu cuidou da construção do mosteiro, do qual tornou-se abade, e da igreja, que foi consagrada pelo Papa João XIX nel 1024.
No Mosteiro de Grottaferrata dedicou-se à redação de hinos religiosos, que produziu em grande número. Em 1032 escreveu sua obra mais importante: a Biografia de São Nilo. Notevole importanza riveste poi il suo Typicon, codice liturgico e disciplinare del monastero. Tutti i suoi manoscritti sono ancor oggi conservati nell'Abbazia di Grottaferrata.
Os hagiógrafos enumeram numerosos milagres realizados em vida e outros post mortem. São Bartolomeu foi sepultado ao lado de São Nilo no Mosteiro de Grottaferrata, mas de seus restos mortais perdeu-se o paradeiro.

Stefano Pisani - 1840
Catedral de Rossano Calabro, Itália

sábado, 10 de setembro de 2011

10 de Setembro - Nossa Senhora da Vida

O afresco da "Madonna della Vita" representa a Virgem sentada no trono, enquanto encosta seu rosto naquele do Menino Jesus. Tal representação se refaz ao modelo do ícone Glycophilousa (do grego: aquela que beija docemente), caracterizada por uma postura de profunda ternura da mãe pelo filho.
No caso particular da Madonna della Vita, onde o menino toca com a mão o rosto da mãe, o formalismo do modelo mais antigo do ícone foi interpretado segundo as linhas da pintura gótica do século XIV. Os olhos alongados, o desenho das mãos longas e finas, assim como as cores das vestes e a composição, estão claramente ligadas à pintura bizantina, mas a rígida posição é contrastada pelos traços leves dos rostos, principalmente pela expressão sorridente da Virgem.

Por suas características estilísticas a obra foi atribuída a Simone dei Crocifissi (documentado entre 1355 - 1399), discípulo de Vitale da Bologna, ou do sobrinho Lippo di Dalmasio, ou Lippo delle Madonne (documentado entre 1375 e 1410), dois intérpretes da pintura bolonhesa dos Trezentos, particularmente ligados à produção de ícones e polípticos de devoção mariana.

Notícias históricas

Segundo a tradição uma imagem da Virgem com o menino foi afrescada na parede leste, durante a construção da primeira igreja, construída em 1286 pela Companhia de Santa Maria della Vita. Com a ricostrução de 1502, o afresco, desprovido de qualquer interesse, foi coberto por uma camada de reboco e dele foram perdidas as pistas.
Em 10 de setembro de 1614, durante os trabalhos de restauro da igreja, a antiga imagem foi redescoberta, ainda em bom estado de conservação. Tida como milagrosa, tornou-se objeto de veneração, cujo culto foi mantido por uma Confraria que a elegeu protetora do adjacente Hospital, e de seus doentes. A imagem foi recolocada em um novo altar em 1617, e o pintor  Ludovico Carracci (1555 - 1619), em sua homenagem, desenhou um novo frontão para a sua exposição.
No desabamento da construção, ocorrido em 1686, o afresco ficou ileso, e foi removido durante os trabalhos de reconstrução do prédio, ao final dos quais, foi colocado no altar onde até hoje se encontra.

Todo o dia 10 de setembro, celebra-se uma festa em memória do achado da imagem, e é também exposta no altar, uma preciosa miniatura do século XVII, contornada e coroada de diamantes, com o retrato de esmalte do Rei Sol. A jóia, atribuída a Jean Petitot (1607 - 1691), foi um presente do próprio Luís XIV (imagem acima)ao canônico Carlo Cesare Malvasia, que em 1678 lhe havia dedicado a sua obra, "Felsina Pittrice".

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

9 de Setembro - São Pedro Claver (missionário)

anônimo - séc. XVII
Igreja de São Nicolau - Estrasburgo

Nasceu em Verdu, perto de Barcelona em 1580, e logo foi estudar na Universidade de Barcelona e após formar, entrou para a Companhia de Jesus em Tarrafona em 1602. Enviado para estudar em Majorca lá conheceu e foi influenciado por Santo Afonso Rodrigues que o convenceu a embarcar com os missionários para trabalhar nas colônias espanholas do Novo Mundo. Ao chegar em Cartagena, na Colômbia, encontrou grande número de escravos da África Ocidental que tinham sido trazidos para as Américas para trabalhar nas colônias espanholas. Seu trabalho era tão desumano e as condições da escravatura tão terríveis, que Pedro prometeu "ser para sempre o escravo dos negros".
Ficou os anos que se seguiram trabalhando pelo bem dos escravos, sofrendo as mais variadas humilhações e a resistência dos oficiais locais e dos membros da sociedade colonial espanhola. Regularmente ele ia para os navios superlotados de escravos, para levar-lhes comida e tratar dos doentes. Ele também defendia os direitos deles como seres humanos. É estimado que ele tenha bitizado cerca de 300.000 africanos.
Faleceu em 9 de setembro de 1654. Beatificado pelo Papa Pio IX em 1850, foi canonizado em 15 de fevereiro de 1888 pelo Papa Leão XIII e em 1896 foi indicado como o padroeiro das missões católicas entre os negros, e da Colômbia.


Vitrais da Igreja dedicada ao santo
Cartagena - Colômbia

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

8 de Setembro - Natividade de Nossa Senhora

Natividade da Virgem - mosaico
Pietro Cavallini - 1291
Igreja de Santa Maria in Trastevere - Roma

A fonte mais antiga e tida como aceitável pela Igreja que ilustra o nascimento e a infância de Maria, é o Protoevangelho de Tiago, datável do século II d.C. No texto são descritos momentos importantes de sua vida: o casamento de seus pais Joaquim e Ana da tribo de Judá, da estirpe de Achar, a sua concepção após 20 anos sem prole, o nascimento da menina e a sua apresentação no templo de Jerusalém.
Vittore Carpaccio - 1505
Academia de Carrara
 A sorte da casa natal de Maria não é muito diferente daquela da cidade de Jerusalém, com perseguições, destruição do templo, dispersão dos judeus, e outros. Com a chegada do Imperador Constantino, e de sua mãe Helena, na primeira metade do século IV, após a liberdade dada aos católicos, abriu-se uma nova era na Terra Santa; as excavações permitiram encontrar, entre outras coisas, as ruínas de um oratório construído sobre o localo onde a tradição indicava como a casa natal de Maria.
Com o III Concílio de Éfeso, de 431, que sancionou a legitimidade do título de “Mãe de Deus”, houve um florescimento de festas marianas no calendário litúrgico, dentre as quais: a Natividade, a Apresentação no Templo, a Anunciação e a Dormição.
Giovanni di Paolo di Grazia
Palácio Doria-Pamphjli - Roma

A data da festa da Natividade de Maria foi fixada em Jerusalém, na primeira metade do século V, aos tempos do patriarca Juvenal e da imperatris Eudóxia, em 8 de setembro, na ocasião da dedicação da Basílica de Santa Maria, edificada sobre a casa natal de Maria.
A data foi escolhida tendo como base o antigo ano litúrgico, que iniciava no mês de setembro; de fato a festa precede e anuncia as festas do primeiro pólo, Natal e Epifania; era seguido do pólo cristológico, Páscoa e Pentecostes, acompanhado pela Assunção da Virgem, que encontrava-se, então, no fechamento do ano litúrgico.
De Jerusalém a festa foi levada para Constantinopla: o primeiro documento que atesta a festa é um hino composto pelo Romano Melode, composto antes de 548: como diácono ele cantava o proêmio e as estrofes, fazendo com que os demais presentes repetissem a estrofe final.

A primeira comemoração mariana conhecida em Roma é aquela da quarta-feira do Tempo IV do Advento, introduzida pelo papa Leão Magno (440-461) na liturgia romana. Por volta de 595 o papa Gregório Magno (590-604) inaugurava a oitava do Natal, considerada a primeira festa mariana da liturgia latina.
Em Roma, nos séculos V e VI, era presente uma numerosa colônia grega que introduziu no mundo latino as festas de origem oriental, dentre as quais a da Natividade. Atribui-se ao Papa Sérgio I (687-701), nascido em Antióquia e faz parte do grupo de papas de origem oriental que ocuparam a cadeira pontifícia entre os séculos VI e VII.

De Roma a festa difundiu-se para todo o Ocidente e tornou-se popular na na Idade Média. A partir do século XI a festa adquiriu importância, tornando-se festa de preceito. Em 1243 o Papa Inocêncio IV estabeleceu que a Natividade fosse uma festa obrigatória para a igreja latina. No século XIV a festa mereceu também a sua vigília, prescrita por Gregório XI (morto nel 1378), instituindo um jejum e compondo-lhe uma missa.

Culto bizantino
ícone - Rússia Central - séc. XVII
No dia 8 de setembro, celebra-se a festa da Natividade da SS. Mãe de Deus e sempre Virgem Maria, que é a primeira das Doze grandes festas do ano litúrgico bizantino. Para as festas com data fixa, o ano litúrgico começa no dia 1º de setembro; tempos atrás, essa data registrava também o início do ano civil no Oriente. Esse costume tem sua origem numa tradição hebraica que fixava o início do novo ano ao Tishri, período que corresponde ao nosso setembro-outubro. Portanto a primeira grande festa litúrgica é mariana, como também a última do ano, a do 15 de agosto, como a confirmar o grande amor que tem para com a Mãe de Deus o Oriente que a viu nascer e crescer em perfeita conformidade ao plano de Deus. Também os cristãos do Ocidente celebram o nascimento de Maria Santíssima na mesma data, porém com menor solenidade. Essa festa mariana teve sua origem em Jerusalém na metade do século V, onde permanecia viva a tradição da dedicação da igreja construída no lugar onde surgia a casa dos santos Joaquim e Ana. No século VI a festa foi introduzida em Constantinopla e mais tarde em Roma.
ícone - Rússia Central - séc. XVIII

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

7 de Setembro - Santa Regina (mártir)

Santas Regina e Martina
Teto da Basílica do Cristo Rei
Lovere - Itália

Regina ou Reine, seu nome no idioma natal, viveu no século III, em Alise, antiga Gália, França. Seu nascimento foi marcado por uma tragédia familiar, especialmente para ela, porque sua mãe morreu durante o parto. Por essa razão a criança precisou de uma ama de leite, no caso uma cristã. Foi ela que a inspirou nos caminhos da verdadeira fé e da virtude. Na adolescência, a própria Regina pediu para ser batizada no cristianismo, embora o ambiente em sua casa fosse pagão.
A cada dia, tornava-se mais piedosa e tinha a convicção de que queria ser esposa de Cristo. Nunca aceitava o cortejo dos rapazes que queriam desposá-la, tanto por sua beleza física como por suas virtudes e atitudes, que sempre eram exemplares. Ela simplesmente se afastava de todos, preferindo passar a maior parte do tempo reclusa em seu quarto, em oração e penitência.
Entretanto o real martírio de Regina começou muito cedo, e em sua própria casa. O seu pai, um servidor do Império Romano chamado Olíbrio, passou a insistir para que ela aprendesse a reverenciar os deuses. Até que um dia recebeu a denuncia de que Regina era cristã. No início não acreditou, mas decidiu que iria averiguar o assunto.
Quando Olíbrio percebeu que era verdade, denunciou a própria filha ao imperador Décio, que seduziu-a com promessas vantajosas caso renegasse Cristo. Ao perceber que nada conseguiria com a bela jovem, muito menos demovê-la de sua fé, ele friamente a mandou para o suplício. Regina sofreu todos os tipos de torturas e foi decapitada.

Martírio da Santa
Jacques Callot - 1630
Auckland Art gallery

O culto a santa Regina difundiu-se por todo o mundo cristão, sendo que suas relíquias foram várias vezes transladadas para várias igrejas. Até que, no local onde foi encontrada a sua sepultura, foi construída uma capela, que atraiu grande número de fiéis que pediam por sua intercessão na cura e proteção. Logo em seguida surgiu a construção de um mosteiro e, ao longo do tempo, grande número de casas. Foi assim que nasceu a charmosa vila Sainte-Reine, isto é, Santa Rainha, na França. Esta festa secular ocorre, tradicionalmente, em todo o mundo cristão, no dia 7 de setembro.