domingo, 31 de julho de 2011

31 de julho - Santo Inácio de Loyola

Pintura colonial - América do Sul, séc. 18

Inácio nasceu no castelo de Loyola em 1491, sendo o último dos 13 filhos de D. Beltrán de Loyola e Da. Maria Sonnez. Aos 16 anos foi enviado como pajem ao palácio de Juan Velásquez de Cuellar, contador mayor dos Reis Católicos Fernando e Isabel, o que lhe permitiu estar em contato contínuo com a corte. Bem dotado física e intelectualmente, o jovem Inácio "deu-se muito a todos os exercícios das armas, procurando avantajar-se sobre todos seus iguais e alcançar renome de homem valoroso, honra e glória militar"1. Ou, como ele mesmo diz com humildade, "até os vinte e seis anos foi um homem dado às vaidades do mundo, e principalmente se deleitava no exercí cio das armas e no vão desejo de ganhar honra"2.
Ouvindo falar dos grandes feitos dos seus irmãos em Nápoles, envergonhou-se de sua ociosidade e participou em algumas campanhas com seu tio, vice-rei da Navarra. Depois foi enviado em socorro de Pamplona, assediada pelos franceses. Era a hora da Providência. A desproporção das forças era esmagadora em favor dos franceses, mas Inácio não quis saber de capitulação e convenceu os seus a resistirem até o fim. "Confessou-se com um companheiro de armas. Depois de algum tempo de duração da batalha, a bala de uma bombarda atingiu-lhe a perna, quebrando-a toda. E como ela passou entre as duas pernas, a outra também foi duramente ferida"3. Inácio caiu por terra. Seus companheiros se renderam.
Os franceses, admirados da coragem do espanhol, trataram-no muito bem, fazendo-o levar depois, em liteira, para o castelo de seus pais. Os ossos haviam começado a se soldar de maneira defeituosa, e foi preciso quebrar de novo a perna para ajustá-los. Isso tudo, é bem preciso dizer, sem anestesia. O que levou-o às portas da morte, de modo a receber os últimos sacramentos. Quando todos esperavam o desenlace, na véspera da festa de São Pedro o doente, que era muito devoto desse Apóstolo, começou a melhorar.


Seria longo narrar todas as torturas a que se submeteu esse soldado para não ficar aleijado; pois, como poderia aparecer assim na corte? Veio depois a longa convalescença, a leitura da vida de Cristo e dos santos, únicos livros que havia no castelo, e sua conversão se deu da maneira mais radical.
O primeiro pensamento do novo soldado de Cristo foi o de ir para a Terra Santa e viver em oração, penitência e contemplação nos lugares em que se operou nossa Redenção.
Em Montserrat, fez uma confissão geral de sua vida e depôs a espada no altar da Virgem. Viveu depois algum tempo em Manresa, onde recebeu grandes favores místicos e escreveu seus famosos "Exercícios Espirituais".
Não lhe permitiram ficar em Jerusalém, por causa da tensa situação então reinante. Inácio voltou a Barcelona para estudar, a fim de preparar-se para o sacerdócio. Foi depois para Alcalá e ainda Salamanca, onde, por causa de sua pregação e reunião de discípulos, sendo ainda leigo — o que era perigoso naquela época de novidades malsãs e heresias — foi denunciado à Inquisição e aprisionado até que sua inocência foi reconhecida.
Resolveu por isso ir a Paris, estudar na famosa universidade local. Foi lá que a Providência o fez encontrar os seis primeiros discípulos, com os quais fundaria a Companhia de Jesus. Entre eles estava o grande Apóstolo da Índia e do Japão, São Francisco Xavier, e o Beato Pedro Fabro.
Anônimo - SMU Museum, Dallas

Após os votos feitos em Montmartre, o que marcou propriamente o início da Companhia, eles se encontraram em Veneza, com o plano de ir à Terra Santa. Enquanto isso, trabalhavam nos hospitais.
Como, depois de um ano, não conseguiram realizar seu intento, decidiram ir a Roma colocar-se à disposição do Sumo Pontífice. Nas proximidades da Cidade Eterna, Inácio teve uma visão na qual Nosso Senhor prometeu ser-lhe favorável em Roma.
"Inácio tinha sugerido para nome de sua irmandade `Companhia de Jesus'. Companhia era compreendido em seu sentido militar, e naqueles dias uma companhia era geralmente conhecida pelo nome de seu capitão. Na Bula latina de fundação, no entanto, eles foram chamados `Societas Jesu'"4.

emblema da Companhia de Jesus

O  papel dos jesuítas na Contra-Reforma católica foi essencial. Na época, pareciam perdidas para o protestantismo não só a Alemanha, mas a Escandinávia, e ameaçados os Países Baixos, a Boêmia, a Polônia e a Áustria, havendo infiltrações da seita não só na França, mas até na Itália.
Santo Inácio enviou seus discípulos a essas regiões infectadas, e estes foram reconduzindo para a Igreja ovelhas desgarradas até na própria Alemanha. Ali trabalharam Pedro Fabro, Cláudio Le Jay e Bobadilha. Mas o jesuíta que seria o grande apóstolo dos povos germânicos, obtendo inúmeras reconversões, foi São Pedro Canísio, hoje considerado, com razão, o segundo apóstolo da Alemanha, depois de São Bonifácio.
O papel dos jesuítas foi também primordial no Concílio de Trento — onde brilharam os padres Laynes e Salmeron — bem como nas universidades e nos colégios, imunizando assim a juventude européia contra o erro.
Santo Inácio - gravura de William Holl

Recebendo informações dos grandes triunfos de seus discípulos, exclamava Santo Inácio: "Demos graças a Deus por sua inefável misericórdia e piedade, tão copiosamente derramada em nós por seu glorioso nome. Porque muitas vezes me comovo quando ouço e em parte vejo o que me dizem de vós e de outros chamados à nossa Companhia em Cristo Jesus"5
Santo Inácio de Loyola queria uma companhia de escola, para combater os erros da época, principalmente os de Lutero e Calvino, e por isso estipulou que, diferentemente das outras congregações ou ordens religiosas, o noviciado seria de mais de um ano. Dizia no fim da vida, quando sua Companhia estava já estendida por quase todos os continentes: "Se eu desejasse que a minha vida fosse prolongada, seria para redobrar de vigilância na escolha de nossos súditos"6.
Sagrado Coração com Santo Inácio e São Luis Gonzaga
José de Páez - 1770

Quando um noviço se ajoelhava junto a ele para pedir perdão e penitência por alguma falta, depois de ter concedido uma e imposto a outra, Inácio dizia: "Levante-se". Se, por uma humildade mal compreendida o noviço não se levantasse imediatamente, ele o deixava ajoelhado e saía, dizendo: "A humildade não tem mérito quando é contrária à obediência".
Um dia chamou um irmão coadjutor e o mandou sentar-se na presença de uma visita. O irmão não o fez, pensando faltar ao respeito ao Superior e à visita. Inácio ordenou-lhe então que pusesse o banco sobre a cabeça, e assim estivesse até a saída da visita.
Quando o noviço não servia, Inácio não tinha contemplação nem mesmo pela sua posição social. Expulsou da Companhia o filho do Duque de Bragança e sobrinho do grande benfeitor da Companhia, D. Manuel, rei de Portugal, e ainda um primo do Duque de Bivona, parente do vice-rei da Sicília, que era também seu amigo e benfeitor.

"A obstinação nas idéias era um dos principais motivos de exclusão ou de expulsão, para o santo fundador. Um espanhol de grande capacidade, duma ciência pouco comum e duma virtude reconhecida, entrou na Companhia e exercia o cargo de ministro na casa professa de Roma, com habilidade; mas quando se lhe metia uma idéia na cabeça, não lhe saía mais. Inácio tirou-lhe o cargo, julgando inapto para mandar aquele que não sabia obedecer. [...] Uma noite Inácio soube que ele acabava de dar uma nova prova da sua teimosia; no mesmo instante envia-lhe ordem de abandonar a casa sem esperar para o dia seguinte"7.
Essa severidade era entretanto balanceada com tanta doçura, que ele era uma verdadeira mãe para os noviços. Tal equilíbrio fazia com que fosse venerado como santo mesmo em vida.
Sua mais preciosa conquista, São Francisco Xavier, tinha-lhe tanta veneração, que muitas vezes lhe escrevia de joelhos. E nos perigos e tempestades invocava seu nome, trazendo ao pescoço, como proteção, junto a seus votos de profissão, a assinatura do Padre Inácio. Constantemente afirmava: "O Padre Inácio é um grande santo".
Laínez, outro dos primeiros discípulos de Inácio e seu sucessor no generalato da Companhia, também o venerava como santo, do mesmo modo que São Francisco de Borja, depois terceiro Superior Geral da Companhia 8.
Rubens - O milagre de Santo Inácio, 1617 - Kunsthistoriche Museum de Viena

Sua vida interior era profunda, e passava-se constantemente na presença de Deus. Conforme narra em sua autobiografia, toda vez que queria encontrar a Deus ele O encontrava, bastando um pouco de recolhimento. Tinha visões, repetidamente, sobretudo quando se tratava de acertar algum negócio importante da Companhia, ou quando redigia suas Constituições. Essas visões lhe eram constantes também quando celebrava a Missa9.
"Sua roupa foi sempre pobre e sem enfeites, mas limpa e asseada, porque, se bem amasse a pobreza, nunca lhe agradou pouca limpeza"10.
Santo Inácio faleceu em Roma, no dia 31 de julho de 1556.

Andrea del Pozzo - Triunfo de Santo Inácio
Afresco no teto da Igreja do Jesus, Roma


Altar e túmulo do Santo na Igreja do Jesus, Roma


Fachada de Igreja do Jesus - Roma


Notas:
1.Pedro de Ribadeneira, Vida de San Ignácio de Loyola, Espasa-Calpe Argentina
S.A., Buenos Aires, 1946.
2.Saint Ignace de Loyola, Autobiographie, Éditions du Seuil, 1962, p. 43. Esta autobiografia foi relatada ao Pe. Luís Gonçalves da Câmara pelo próprio Santo. Com uma memória prodigiosa, o jesuíta português, imediatamente depois de cada conversa, transcrevia-a para o papel. Santo Inácio ditou o texto na 3a. pessoa.
3.Id., ib.

4.Saint Ignatius of Loyola, J. H. Pollen, Transcribed by Marie Jutras, The Catholic Encyclopedia, Volume VII, 1910, Robert Appleton Company. Online Edition Copyright © 1999 by Kevin Knight.
5.R.Garcia-Villoslada, S.I., Ignácio de Loyola _ Um español al servicio del Pontificado, Hechos y Dichos, Saragoça, 1956, p. 221.
6.J.M.S. Daurignac, Santo Inácio de Loiola _ Fundador da Companhia de Jesus, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1958, 4a. edição, p. 255.
7.Id., p. 257 e ss.
8.Pedro de Ribadeneira, op. cit., p. 258.
9.Cfr. Autobiographie, p. 163.
10.Id., pp. 260-261.
Fonte: Revista Catolicismo
Carta autógrafa do Santo

sábado, 30 de julho de 2011

30 de julho - São Pedro Crisólogo


Nasceu em Ímola, na Itália, em 380 e "aproveitou" sua vida, gastando-se totalmente pelo Evangelho, a ponto de ser reconhecido como Doutor da Igreja em 1729, pelo Papa Bento XIII. São Pedro Crisólogo tinha este nome por ter se destacado, principalmente pelo dom da pregação - Crisólogo significa 'O homem da palavra de ouro'.
Dele se conservam cerca de 200 sermões. Numa homilia define o avarento como "escravo do dinheiro, mas o dinheiro - acrescenta - é o escravo do misericordioso." É fácil entender o significado desta prédica. Sua pregação colocava insistentemente em evidência o amor paternal de Deus: "Deus prefere ser amado a ser temido". Humildes e poderosos escutava-os ele com igual condescendência e caridade. A imperatriz Gala Placídia teve-o como conselheiro e amigo.
Diante da morte do bispo de Ravena, o escolhido para substituí-lo foi Pedro, que neste tempo vivia num convento, onde queria oferecer-se como vítima no silêncio; mas os planos do Senhor fizeram dele bispo. Pastor prudente e zeloso usou do dom da pregação como instrumento do Espírito para a conversão de pagãos, hereges e cristãos indiferentes na vivência da própria fé.
São Pedro Crisólogo, com o seu testemunho de santidade, conhecimento das ciências teológicas e dom de comunicação venceu a heresia do Monofisismo, a qual afirmava Jesus ter apenas uma só natureza, e não a misteriosa união da natureza Divina e Humana como o próprio nos revelou. Um homem que tinha o pecado no coração, porém Pedro lutou com as armas da oração, jejum e mortificações para assim desfrutar e transmitir, pela Palavra, o tesouro da graça, isto até entrar na Glória Celeste em 450.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

29 de julho - Santa Marta

Santa Marta - Bucaue Bulacan - Filipinas


As Escrituras contam que, em seus poucos momentos de descanso ou lazer, Jesus procurava a casa de amigos em Betânia, local muito agradável há apenas três quilômetros de Jerusalém. Lá moravam Marta, Lázaro e Maria, três irmãos provavelmente filhos de Simão, o leproso. Há poucas mas importantíssimas citações de Marta nas Sagradas Escrituras.

Santa Marta de Sebastián Rojas, 1950, Sevilha

É narrado, por exemplo, o primeiro momento em que Jesus pisou em sua casa. Por isso existe a dúvida de que Simão fosse mesmo o pai deles, pois a casa é citada como se fosse de Marta, a mais velha dos irmãos. Mas ali chegando, Jesus conversava com eles e Maria estava aos pés do Senhor, ouvindo sua pregação. Marta, trabalhadora e responsável, reclamou da posição da irmã, que nada fazia, apenas ouvindo o Mestre. Jesus aproveita, então, para ensinar que os valores espirituais são mais importantes do que os materiais, apoiando Maria em sua ocupação de ouvir e aprender.

Jacopo Bassano- Jesus em casa de Marta e Maria - Sarah Campbell Blaffer Found. - Houston

Fala-se dela também quando da ressurreição de Lázaro. É ela quem mais fala com Jesus nesse acontecimento. Marta disse a Jesus: "Senhor, se tivesses estado aqui, o meu irmão não teria morrido. Mas mesmo agora, eu sei que tudo o que pedires a Deus, Deus dará".

Vincenzo Campi - Galleria Estense de Módena, Itália

Trata-se de mais uma passagem importante da Bíblia, pois do evento tira-se um momento em que Jesus chora: "O pranto de Maria provoca o choro de Jesus". E o milagre de reviver Lázaro, já morto e sepultado, solicitado com tamanha simplicidade por Marta, que exemplifica a plena fé na omnipotência do Senhor.

Jacques Pilliard - 1844 - Museu de Grenoble

Outra passagem é a ceia de Betânia, com a presença de Lázaro ressuscitado, uma prévia da última ceia, pois ali Marta serve a mesa e Maria lava os pés de Jesus, gesto que ele imitaria em seu último encontro colectivo com os doze apóstolos.

Tintoretto - Alte Pinakotek de Munique

Os primeiros a dedicarem uma festa litúrgica a santa Marta foram os frades franciscanos, em 1262, e o dia escolhido foi 29 de julho.

Rembrandt - Museu Pushkin, Moscou

“Jesus e os seus discípulos continuaram a sua viagem e chegaram a um povoado. Ali uma mulher chamada Marta o recebeu na casa dela. Maria, a sua irmã, sentou-se aos pés do Senhor e ficou ouvindo o que ele ensinava. Marta estava ocupada com todo o trabalho da casa. Então chegou perto de Jesus e perguntou: – O senhor não se importa que a minha irmã me deixe sozinha com todo este trabalho? Mande que ela venha me ajudar. Aí o Senhor respondeu: – Marta, Marta, você está agitada e preocupada com muitas coisas, mas apenas uma é necessária! Maria escolheu a melhor de todas, e esta ninguém vai tomar dela.” Lucas 10: 38-42
Vermeer - 1655 - National Gallery of Scotland, Edimburgo

A tradição nos diz que diante da perseguição dos judeus, Santa Marta, Maria e Lázaro, saíram de Bethânia e tiveram de ir para França, onde se dedicaram à evangelização. Santa Marta é considerada em particular como patrona das cozinheiras, e sua devoção teve início na época das Cruzadas.
William Blake - 1800, Victoria and Albert Museum, Londres

Santa Marta era mais popular na cidade de Tarascon, onde, segundo a tradição, estrangulara Tarasca, um monstro que devorava animais domésticos e crianças.

Marta guiando o tarasca - miniatura medieval francesa
Oração

Santa Marta de Betânia, hospedeira do Senhor, hoje o Povo da Aliança canta um hino em teu louvor. Tua casa foi o abrigo onde o Mestre repousou. No calor de um lar amigo, ele as forças renovou. Pão e vinho lhe serviste, quando tua irmã, Maria, vida eterna em alimento dos seus lábios recebia. Reclamastes a sua ausência junto a Lázaro doente, proclamando assim a fé no seu Verbo onipotente. Dele escutas a promessa: teu irmão ressurgirá. E proclamas: Tu és Cristo, Deus conosco em ti está. No milagre testemunhas seu poder e seu amor: teu irmão retorna à vida, à palavra do Senhor. Que possamos caminhar com Jesus, na fé ardente, e contigo contemplar sua face eternamente. Amém.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

28 de julho - Ss. Nazário e Celso


Nazário nasceu em Roma, ainda no primeiro século da era cristã. O pai era um pagão e se chamava Africano. A mãe, de nome Perpétua, era uma cristã fervorosa. Enquanto, ele desejava tornar o filho um sacerdote à serviço de um dos muitos deuses pagãos, ela o queria temente à Deus, no seguimento de Cristo, por isto, o educou dentro da religião. Assim, com apenas nove anos de idade, o menino pediu para ser batizado, definindo a questão e sendo atendido pelo pai, que algum tempo depois também se converteu.

Nazário foi batizado pelas mãos do próprio Papa São Lino, o primeiro sucessor de São Pedro, que fez dele um dos seus auxiliares diretos. Ingressou no exército romano e com ele percorreu toda a Itália, onde também pregava o Evangelho. Mas, ao ser descoberto foi levado à presença do imperador, que o mandou prender. Conseguindo fugir, abandonou Roma e se tornou um pregador itinerante, até que, durante um sonho, Deus lhe disse para sair da Itália.

Assim foi para a Gália, hoje França, sempre pregando a Palavra de Cristo. Em Cimiez, próximo de Nice, depois de converter uma nobre e rica senhora e seu filho, um adolescente de nome Celso, ela confiou o jovem à Nazário, que o fez seu discípulo inseparável. Juntos percorreram os caminhos da Gália, deixando para trás cidades inteiras convertidas, pois, durante as suas pregações aconteciam muitos milagres, à vista de todos os presentes.

Depois, foram para Treves, atualmente Trier, na Alemanha, onde fundaram uma comunidade cristã que se tornou tão famosa, que os dois acabaram sendo denunciados e presos. Condenados à morte, foram jogados na confluência dos rios Sarre e Mosel. E novo milagre ocorreu: em vez de afundar, os dois flutuaram e andaram sobre as águas. Assustados, os pagãos não tentaram mais matá-los, apenas os expulsaram do país.

Nazário e Celso foram então para Milão, onde mais uma vez se viram vítimas da perseguição pagã, imposta pelo imperador Nero. Presos e condenados, desta vez foram decapitados em praça pública.

Giuseppe Antonio Torricelli - São Celso - sec XVIII

Passados mais de dois séculos, em 396, os corpos destes dois mártires foram encontrados, pelo próprio Bispo de Milão, Ambrósio, também venerado pela Igreja. Durante suas orações, teve uma visão, que lhe indicou o local da sepultura de Nazário. Mas, para surpresa geral, a cabeça do mártir estava intacta, com os cabelos e a barba preservados e ainda dela escorria sangue, como se fora decapitado naquele instante. A revelação foi mais impressionante porque, durante as escavações, também encontraram o túmulo do jovem discípulo Celso, martirizado junto com ele.

Também foi por inspiração de Santo Ambrósio que esta tradição chegou até nós, pois ele a contou a São Paolino de Nola, seu discípulo e biógrafo. As relíquias de São Nazário e São Celso foram distribuídas às igrejas de várias cidades da Itália, França, Espanha, Alemanha, África e Constantinopla. Desta maneira, a festa dos dois Santos se difundiu por todo o mundo católico, sendo celebrados no dia em que Santo Ambrósio teve a revelação: 28 de julho.

Oratório de São Celso - Roma


Basílica de São Celso - Milão


quarta-feira, 27 de julho de 2011

27 de lulho - São Pantaleão

Ícone grego

São Pantaleão, associado aos santos médicos orientais, teve o auge de seu culto na Idade Média, e está associado aos 14 Santos Auxiliares (S. Acácio, S. Bárbara, S. Brás, S. Ciríaco, S. Cristóvão, S. Dionísio, S. Egídio, S. Erasmo, S. Eustáquio, S. Jorge, S. Margarida e S. Vito). Com Cosme e Damião divide o epíteto de anargiro, (literalmente do grego sem prata), ou seja, médico que trabalhou de forma voluntária, sem receber nenhum tipo de honorário por seu trabalho. Seu culto é amplamente difundido no Oriente (Ásia Menor, Grécia e Rússia), onde é chamado Pantaleimone, todo misericordioso, e no Ocidente, (Itália, França, Alemanha e Espanha) onde muitas igrejas e mosteiros são a ele devotados.  

A narração de sua vida chegou até nós através de poucas notícias históricas, principalmente através de sua Passio que, junto dos calendários e locais de culto, documentam a existência de relíquias e do local de seu martírio. Nasceu em Nicomédia, na atual Turquia, cresceu em ambiente religioso misto, filho de pai pagão e mãe cristã, formou-se culturalmente na arte da medicina. O encontro com o grande sacerdote Ermolau aproximou-o do Cristianismo, conseguindo converteu não somente seu pai, mas a operar milagres e a sofrer a perseguição conduzido aos cristãos no reinado de Maximiano.

 A Passio de Pantaleão foi escrita em grego, muitas vezes traduzida para o latim, e é difícil estabelecer com precisão a data da sua composição. Estudiosos atribuem a obra a Simone Metafraste, que entre os anos 961-964 recolheu e escreveu notas sobre a vida dos mártires. Embora a obra não tenha o peso de uma tradição histórica documentada, não pode se dizer que não tenha nenhum peso, pois confirma claramente o local e a data do martírio: Nicomédia, 27 de julho.
Imagem venerada na cidade de Buenos Aires

A Passio conta que o mártir foi amarrado a um cavalete e que seus membros, primeiramente, foram estirados. Em seguida, foi queimado com tochas, e que no ápice de seu sofrimento, Cristo lhe apareceu nas vestes de Ermolau e o libertou milagrosamente. Num segundo momento de tortura, Cristo apareceu novamente e liberou-o de um caldeirão de chumbo fervente onde o haviam mergulhado. Tendo resistido a duas tentativas, jogaram o santo nas águas do mar com uma grande pedra amarrada ao seu pescoço. Foi libertado por anjos que, milagrosamente desamarraram a pedra e o levaram a salvo para uma praia. Foi então jogado às feras nas arenas do Circo, e mais uma vez Cristo apareceu e as feras se amansaram. Preparou-se, então, uma grande roda e o santo foi atirado do alto da colina onde se situava o palácio imperial e o tribunal, mas o suplício não o levou à morte. O Imperador quis saber, então, quem o tinha educado na fé cristã, e tendo sabido ser obra de Ermolau, chamou o sacerdote à sua presença. Naquele momento, um terremoto fez tremer a colina, Pantaleão vaticinou a queda dos ídolos pagãos e a vitória do Cristianismo naquelas terras. “E isso realmente aconteceu”.

O sangue de São Pantaleão, conservado na igreja homônima na cidade de Ravello, na Costa Amalfitana, sul da Itália, se liquefaz, do mesmo modo como aquele de São Gennaro, e o milagre ocorre exatamente no dia da festa do santo, 27 de julho. O evento foi documentado pela primeira vez em  1577: “O sangue do glorioso mártir, conservado numa grande ampola de vidro encerrada numa custódia de prata, milagrosamente se liquefez nas primeiras vésperas da festa e permaneceu assim por todas as oitavas, até o ocaso do dia seguinte”, relata um documento. Diversos os testemunhos que se seguiram, dentre os quais, o do Arcebispo de Amalfi, Monsenhor Ercolano Marini, datada de 1918 e do capitão escocês Jan Grant, escrita de próprio punho em julho de 1924, após uma atenta observação começada no mês de maio, seguida dia a dia, até a completa liquefação do sangue.

Busto e relicário com sangue - Ravello, Itália

Todos os anos milhares de madrilenos acorrem no dia 26 de Julho à igreja da Encarnação para venerar o prodígio da liquefação do sangue de São Pantaleão, e, como é habitual, surge a mesma incógnita: se produzirá de novo?

Se não acontecer, é sinal de mau agouro e de próximos acontecimentos funestos para Madrid e até para o Mundo. Por volta das quatro horas da tarde, com a igreja cheia de gente para observar o fenômeno, o relicário que supostamente encerra o sangue de São Pantaleão numa ampola, sofre uma metamorfose inexplicável: durante 48 horas a substância, que ao longo do ano pode ver-se com uma cor vermelha e completamente seca, começa a converter-se, pouco a pouco, num líquido de tonalidade brilhante. Assim permanece até o dia seguinte, 27 de Julho, dedicado a São Pantaleão, quando o sangue volta a secar.

Ampola com o sangue do santo em Madrid

As freiras agostinhas recoletas do Real Convento da Encarnação, são quem anunciam o início do fenômeno e a sua conclusão, para gáudio de toda a Madrid e do Mundo assim poupados de próximas calamidades, crença propagada pelas mesmas religiosas que afirmam ser esse milagre “um presente de Deus”. A fama do sangue miraculoso de São Pantaleão aumentou na Península Ibérica no século XVII, quando em 1611 Mariana de San José, filha do vice-rei Juan de Zuniga, fundou o Real Mosteiro da Encarnação trazendo para aqui a relíquia do sangue deste santo. As suas curas milagrosas e as transformações do estado sólido a líquido e vice-versa, levaram as autoridades eclesiásticas a intervirem ante o auge dos sucessos portentosos, e nunca o Santo Ofício conseguiu concluir se a origem desses acontecimentos sobrenaturais era celestial ou diabólica.

terça-feira, 26 de julho de 2011

26 de julho - Sant'Ana e São Joaquim

Encontro de Sant'Ana e São Joaquim - anônimo, Igreja de San Salvatore, Istia (Itália)

Ana e Joaquim, sem dúvida , pertenciam ao grupo daqueles Judeus piedosos que esperavam a consolação de Israel, e precisamente a eles foi dada a tarefa especial, na História da Salvação: Foram escolhidos por Deus, para gerar a Imaculada que, por sua vez, é chamada a gerar o Filho de Deus.
Os nomes e alguns aspectos da vida dos pais da Bem-Aventurada Virgem Maria, nos foram transmitidos através de um texto não canônico, o Proto-Evangelho de Tiago.
Diz-se que, Ana, cujo nome em Hebraico significa “Graça” , pertencia à família do Sacerdote Aarão e seu marido Joaquim pertencia à família real de David. Podemos dizer que Ana e Joaquim formavam um casal exemplar, piedosos e tementes ao Deus de Israel.
Cumpriam com todos os preceitos prescritos na lei e em tudo eram obedientes.
O que causava dor e sofrimento era motivo de súplicas incessantes do já idoso casal era a ausência de filhos. Joaquim, por várias vezes, foi censurado pelo sacerdote Ruben, por não ter descendente.
Um certo dia Joaquim retirou-se para o Deserto para rezar e fazer penitência e entre lágrimas e súplicas clamava ao Deus de seus pais em quem depositava toda sua confiança.
Enquanto Joaquim, em humilde oração e com o rosto no chão entoava cânticos e louvores, o Anjo do Senhor lhe apareceu, dizendo que Deus escutou as suas preces e que voltasse para casa pois sua esposa Ana logo engravidaria.
Tiepolo - A visão de Sant'Ana - Alte Gallerie, Dresden

A paciência e a resignação com que sofreram a ausência de filhos, foram a razão de serem premiados com uma linda menina, que haveria de ser a mãe do Messias, o Emanuel “Deus Conosco”.
Uma antiga tradição nos diz que o Santo Casal, Ana e Joaquim, moravam em Jerusalém, ao lado da piscina de Betesda, onde hoje se ergue a Basílica de Santa Ana, e foi ali que, também, segundo uma antiga tradição nasceu-lhes um linda filhinha que recebeu o nome de Miryam/Maria, cujo significado é Soberana.
A Pequena Princesa era acalentada em seu sono por seus orgulhosos pais, era a tão esperada; Dizem que os Anjos de Deus montavam guarda junto ao seu berço, e que entoavam as mais belas melodias para embalar seus sonhos.
Quando a pequena Maria completou três anos, seus pais decidiram levá-la ao Templo para o cumprimento da promessa; Joaquim e Ana, com os corações apertados, carregavam nos braços aquela que seria a nova Arca da Aliança.
Ana, plenamente convicta de sua decisão, disse ao Sacerdote Zacarias: “Recebei-a e conduz nos sacrais do Templo do Senhor, e guardai-a. Ela me foi dada em fruto e prometida; conduzi-la com alegria, a Ele com fé”.
A pequena Maria beija, com afeição e carinho as mãos de seus pais, e deles implora suas bênçãos... E lá permaneceu até a idade de 12 anos.
Pouco tempo depois Joaquim e Ana mudaram-se para Nazaré da Galiléia, e lá viveram por mais algum tempo juntos. Joaquim, já com idade bastante avançada, veio a falecer antes mesmo que Maria retornasse do Templo.
Dona Ana, ficando viúva, não tinha outra preocupação que não fosse sua filha , a Jovem e Bela Maria, agora de Nazaré. Tão logo Maria retornou do Templo, e em comum acordo com os Sacerdotes, Ana pensou no futuro de sua menina, pensou que ela precisaria de proteção e amparo, pois Ana também já estava com idade avançada.
Entre todos os pretendentes da jovem Maria, um jovem chamado José, cuja profissão era desempenhada com arte e beleza, era homem simples, honrado e estimado por todos, era conhecido com justo.
Ana, por certo, acompanhou todos os momentos decisivos da História da Salvação, desde a Anunciação do Anjo, que foi em sua casa, o casamento de Maria e Jose, preparou os alimentos e agasalhos para a viagem de sua filha e seu genro ate Belém.
Seu coração de mãe ficou apertado ao ver, Maria já no final da gravidez, partir sentada no burrinho e puxado por José.
Ana recebe noticias: Maria e José, são obrigados a fugir para o Egito!
Foram cinco anos de espera, Ana aguardava ansiosa pelo momento de ter em seus braços, seu neto, o Messias esperado.
Com a chegada da Sagrada Família, a casa de Ana em Nazaré enche-se de alegria, Ana afaga o pequeno menino, coloca em seu colo de Vó, conta historias de heróis e com ele troca segredos ,e prepara deliciosas guloseimas que somente as Avós, sabem fazer.


Imagens devocionais em papel - Europa, sec. XX

Sant'Ana Guia - Bahia, séc. XVIII, acervo MAB

Retábulo de Sant'Ana - séc. XVII, Matriz de Ovar - Portugal


segunda-feira, 25 de julho de 2011

25 de julho - São Cristóvão

Joachim Patinier - 1515 , El Escorial de Madrid

São Cristóvão (em grego: Άγιος Χριστόφορος, em latim: Christophorus) é um santo venerado por católicos e cristãos ortodoxos, classificado como mártir morto durante o reinado de Décio, imperador romano do século III. Apesar de ser um dos santos mais populares do mundo, muito pouco se sabe ao certo sobre sua vida.

São Cristóvão é venerado no dia 9 de maio pela Igreja Ortodoxa. O Calendário Tridentino da Igreja Católica permite a celebração de São Cristóvão no dia 25 de julho, apenas em missas privadas. Esta restrição foi removida mais tarde. Apesar da Igreja Católica ainda aprovar a devoção a ele, o listando entre os mártires romanos venerados em 25 de julho, ela removou seu dia festivo do calendário católico de santos em 1969. Na época, a igreja declarou que a celebração não era de tradição romana, tendo em vista sua adesão tardia (por volta do ano de 1550) e limitada ao calendário romano.

A Igreja Católica argumenta que quase nada de histórico é conhecido sobre a vida e a morte de São Cristóvão, apesar de que várias lendas são atribuídas a ele. A mais popular se origina da Legenda Áurea, uma compilação de histórias de santos do século XIII.

Tiziano - 1523, palazzo Ducale de Veneza

Um rei pagão em Canaã ou na Arábia, através das preces de sua esposa à Virgem Maria, teve um filho a quem batizou de Reprobus (Offerus), dedicando-o ao deus Apolo. Adquirindo tamanho e força extraordinárias com o tempo, Reprobus resolveu servir apenas aos mais fortes e bravos. Em sua busca por tais indivíduos, ele acabou servindo a um rei poderoso e a um indivíduo que alegava ser o próprio Satanás, mas acabou por achar que faltava coragem a ambos, uma vez que o primeiro temia o nome do diabo e o último se assustara com a visão de uma cruz na estrada. Em seguida, ele encontra um eremita que lhe educou na fé cristã, batizando-o. Reprobus se recusou a jejuar e a rezar para Cristo, mas aceitou a tarefa de ajudar as pessoas a atravessar um rio perigoso, no qual muitos haviam morrido ao tentar fazer a travessia.

Orazio Borgiani

Certo dia, Reprobus fez a travessia de uma criança que ficava cada vez mais pesada, de tal maneira que ele sentia como se o mundo inteiro estivesse sobre os seus ombros. Após a travessia, a criança revelou ser o Criador e o Redentor do mundo. Daí provém o nome Cristóvão, que significa "aquele que carrega Cristo". Em seguida, a criança ordenou a Reprobus que fixasse seu bastão na terra. Na manhã seguinte, apareceu no mesmo local uma exuberante palmeira. Este milagre converteu muitos, despertando a fúria do rei da região. Cristóvão foi preso e, depois de um martírio cruel, decapitado. análise histórica das lendas de São Cristóvão sugere que Reprobus (Christóvão) viveu durante o período de perseguição aos cristãos do imperador Décio ou do imperador Diocleciano, e que ele foi capturado e martirizado pelo governador da Antioquia. De acordo com o historiador David Woods, os restos mortais de Cristóvão foram possivelmente levados para Alexandria por Pedro I, onde teriam sido confundidos com os do mártir egípcio São Menas.

Peter Paul Rubens

A lenda de São Cristóvão, de origem grega, provavelmente teve início no século VI. Em meados do século IX, já havia se espalhado pela França. Originalmente Cristóvão era apenas um mártir e, como tal, é registrado nos antigos martirológios. A passagem simples sobre sua vida logo deu lugar a lendas mais elaboradas. A idéia vinculada a seu nome, primeiramente entendida no sentido espiritual, como "aquele que carrega Cristo no coração", foi tomando um sentido mais literal por volta dos séculos XII e XIII, se tornando o principal feito do santo. O fato dele ser freqüentemente chamado de "grande mártir" pode ter dado origem à história de que possuía estatura enorme. O rio e o peso da criança podem ter sido acrescentados como maneira de identificar as provações e lutas de uma alma que têm sobre si o jugo de Cristo neste mundo.

Albrecht Dürer

Antes da canonização formal de São Cristóvão no século XV, muitos santos eram proclamados divinos por aclamação popular. Isto significa que os processos de canonização de então se davam de maneira muito mais rápida, mas muitos dos santos eram baseados em lendas, na mitologia pagã ou até mesmo em outras religiões. Em 1969, a Igreja Católica examinou todos os santos de seu calendário para ver se realmente haviam evidências históricas de que eles existiram e viveram uma vida de santidade. Nesta análise, a Igreja concluiu que havia pouca evidência de que muitos santos, incluindo alguns muito populares, existiram de fato. Cristóvão foi um dos santos cuja vida teria sido baseada em grande parte em lendas e, assim sendo, teve seu nome retirado do calendário hagiológico. Alguns santos, como Santa Úrsula, tiveram suas vidas consideradas tão lendárias que seus cultos foram completamente reprimidos. Cristóvão, por sua vez, teve seu culto restrito a calendários locais.
Jusepe de Ribera

25 de julho - São Tiago Apóstolo

Tisi da Garofalo - Apóstolo São Tiago

É chamado de “Maior” para distingui-lo de homônimo apóstolo, Tiago de Alfeu (o Menor). Nasceu em Betsaida, no lago de Tiberíades, filho de Zabedeu e de Salomé (Mc 15,40; Mt 27,56) e irmão de João Evangelhista. Com o irmão foi um dos primeiros discípulos de Jesus (Mc 1,19; Mt 4,21; Lc 5,10). De caráter impetuoso, como o irmão, foi chamado por Jesus de “Boànerghes” (filho do trovão) (Mc 3,17; Lc 9,52-56) e era um dos prediletos do Mestre junto com Paulo e André. Foi testemunha, com Pedro, da Transfiguração do Senhor no Monte Tabor (Mt 17,1-8; Mc 9,2-8; Lc 9,28-36), da ressurreição da filha de Jairo (Mc 5,37-43; Lc 8,51-56), assistiu à cura da sogra de Pedro e junto de Pedro e João fez vigília no Getmsemani na véspera da Paixão (Mc 14,33ss; Mt 27,37s).
Segundo Isidoro de Sevilha, Tiago foi para a Espanha para difundir o Evangelho. Em seu tempo havia um grande fluxo comercial de minerais, de estanho, ouro, ferro e cobre entre a Galícia e a costa da Palestina. Nessas viagens eram trazidos para a Europa objetos ornamentais, pedras de mármore, especiarias e outros produtos, comprados principalmente em Alexandria e em portos ainda mais orientais, e é possível que Tiago tenha realizado a viagem da Palestina para a Espanha em um desses navios, desembarcando na Andaluzia, onde começou sua pregação. Proseguiu, depois, para Coimbra e Braga, passando, segundo a tradição, através da Iria Flavia no Finis Terrae hispânico, onde continuou a pregação.
Carlo Maratti

No Breviário dos Apóstolos (fim do século VI) é atribuída ao santo a evangelização da “Hispania” e fala da sua sepultura em Arca Marmárica. Sucessivamente, já na segunda metade do século VII, o erudito monge inglês chamado de Venerável Beda, cita novamente esse fato na sua obra, e indica com surpreendente exatidão, o local da Galícia onde se encontra o túmulo do apóstolo. A tradição popular indica o túmulo no alto das colinas do Vale de Padrón, onde havia um culto das águas. Ambrosio de Morales no século XVI, em sua obra A Viagem Santa conta: “Subindo a montanha, na metade de seu flanco, há uma igreja onde dizem que o Apóstolo pregava e rezava missas, e debaixo do altar-mor surge uma fonte de água, a mais fria e mais delicada que já provei na Galícia”. Esse local é hoje chamada de “O Santiaguiño do Monte”.

Seu retorno para a Terra Santa foi através da via romana de Lugo, através da Península, passando por Astorga e Zaragoza, onde, desolado ele recebeu o consolo e o conforto da Virgem Maria, que lhe apareceu, segundo a tradição, em 2 de janeiro de 40), às margens do rio Ebro, sobre uma coluna romana de quartzo, e lhe pediu para construir uma igreja naquele local. Esse acontecimento serviu para explicar a fundação da Igreja de Nuestra Señora del Pilar de Zaragoza, hoje basílica e  importante santuário mariano espanhol. Navegando pelo Ebro, Tiago chegou a Valencia, para depois ir para Murcia ou Andaluzia, e então retornar à Palestina entre 42 e 44 d.C..
Nicolas Poussin - Aparição da Virgem do Pilar a São Tiago - Louvre

Já na Palestina, junto ao grupo dos “Doze”, as colunas da primitiva igreja de Jerusalém, foi impedido de continuar suas pregações. Desprezando tal proibição, anunciava a sua mensagem evangelizadora entrando nas sinagogas e discutindo a palavra dos profetas. A sua grande capacidade comunicativa, a sua dialética e a sua personalidade, fizeram dele um dos apóstolos mais seguidos na missão de evangelizar.
Herodes Agripa I, rei da Judéia, para aplacar os protestos das autoridades religiosas hebraicas, escolheu-o para o martírio, condenando-o à decapitação. Desse modo foi o primeiro mártir do Colégio Apostólico.
Segundo a tradição, o escriba Josias, encarregado de conduzir Tiago ao suplício, foi testemunho do milagre da cura de um paralítico que invocavo o santo homem. Josias, perplexo e arrependido, converteu-se ao cristianismo e suplicou o perdão do Apóstolo, que lhe pediu um recipiente com água e o batizou. Ambos foram decapitados no ano 44.
Diz a lenda que os discípulos de Tiago,  Atanásio e Teodoro, recolheram o seu corpo e sua cabeça e os transportaram de Jerusalém para a Galícia, de navio.  Esses discípulos, uma vez na Espanha, pediram a Lupa, uma nobre pagã, rica e influente, de sepultar o corpo do santo nas terras de seu feudo, próximo ao castelo de Francos, a pouca distância da atual cidade de Santiago de Compostela. Ela submeteu o pedido ao governador romano Filótros, que residia em Dugium, próximo a Finisterra. Longe de entender as razões daqueles homens, ordenou a sua prisão. Segundo a lenda, os discípulos foram milagrosamente libertados por um anjo. Chegados à ponte de Ons ou Ponte Pías, sobre o rio Tambre, assim que atravessaram a ponte, ela ruiu e eles puderam fugir tranquilamente da perseguição dos romanos. Lupa os levou até o Monte Iliciano, hoje Pico Sacro, lhes ofereceu alguns bois selvagens que viviam naquelas terras em liberdade, e uma carroça, para que transportassem os restos do santo de Padrón até Santiago.
Retábulo mexicano do século XVI - Museu Smithsonian

Narra a lenda que os bois começaram a seguir pela estrada sem recber nenhuma ordem, e que num determinado local, pararam e começaram a escavar a terra com suas patas. Imediatamente começou a brotar água do local. É a atual Fonte Franco, onde, mais tarde, foi edificada uma igreja. Os bois prosseguiram o caminho e chegaram a um terreno de propriedade de Lupa; ali pararam. Ela doou o terreno para a construção da sepultura do santo, onde hoje está a Catedral de Santiago.